sábado, 7 de janeiro de 2012

ESCRITOR FALA SOBRE A INSANIDADE RELIGIOSA

Entrevista com o filósofo norte-americano Michael Largo
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POR QUE A HUMANIDADE CONCEBEU A RELIGIÃO? - A morte é uma das principais razões para a humanidade ter inventado a religião. As vidas dos nossos primeiros ancestrais foram atormentadas pelas incríveis incertezas. A morte foi a mais atormentadora. Naquela época, a expectativa de vida era de apenas 18 anos de idade, então a mortalidade era uma experiência cotidiana. Eu imagino um bando de humanos primitivos de pé ao lado do corpo de um familiar morto, se perguntando: “Para onde foi aquela coisa que dava vida e animação ao meu companheiro?”. Quando não havia mais respostas para a vida e para a sobrevivência, os humanos precisaram inventar explicações, que invariavelmente se tornaram catalisadoras para a teologia e a religião.

QUAIS FORAM OS PRIMEIROS VESTÍGIOS DE RELIGIOSIDADE NA HISTÓRIA HUMANA? - Os Neandertais provavelmente ensinaram aos humanos como praticar rituais religiosos e como buscar respostas ao inexplicável. Eles colocavam, por exemplo, crânio de urso e adereços ritualísticos em volta dos cadáveres. Os primeiros túmulos humanos, datados de 100 mil anos atrás, foram descobertos em uma caverna perto de Nazaré, em Israel. Os restos mortais tinham sido sepultados ritualisticamente, com os ossos pintados de vermelho, conchas marinhas dispostas ao redor e crânios apontando o Norte. Isso indica que nossos mais remotos ancestrais tinham uma crença, pelo menos, na vida após a morte.

COMO COMEÇOU ESSA SUA VONTADE DE CONHECER DIFERENTES RELIGIÕES? O QUE VOCÊ BUSCAVA? - Existem muitas religiões que vêm e vão e algumas milhares que são praticadas até hoje. Eu queria ver se havia uma verdade ou algum tipo de consistência entre a variedade de sistemas de crença. Para meus outros livros, eu pesquisei sobre a morte por muitos anos. Eu admito que, em alguns momentos, enquanto eu compilava estatísticas e contava as infinitas colunas de vidas humanas que vinham e iam – geralmente não deixando nenhuma marca de sua existência além de um mero dígito no cálculo –, eu me perguntava: “Qual é o propósito de tudo isso?”. 

E VOCÊ ENCONTROU ESSA VERDADE? - Eu descobri que as religiões baseiam todos os seus fundamentos em ideias e conceitos que não podem ser provados e, por isso, nada pode ser oferecido como a verdade. Os mais loucos conceitos se tornaram dogmas, demandando fé para aceitá-los. Olhando pelo lado negativo, há uma tendência entre as religiões de promover o comportamento delirante e irracional. Na verdade, crenças religiosas têm causado mortes em massa, seja por guerras ou por dogmas e doutrinas. Mas olhando positivamente, de acordo com teólogos, as religiões têm confortado muitas pessoas e salvado bilhões de almas.

VOCÊ PASSOU 25 ANOS DE SUA VIDA CONHECENDO RELIGIÕES. COMO SE DEU ESSA JORNADA, NA PRÁTICA? - Eu fui educado por jesuítas, mas minha experiência de campo começou como um coroinha católico que falava Latim. Pratiquei uma série de doutrinas orientais, do Zen à Meditação Transcendental. Nos anos 1970, presenciei uma cerimônia rastafariana na Jamaica. Também assisti a palestras da Nova Era, inclusive sobre teorias de anjos viajantes no tempo e a respeito do valor esotérico dos cristais. Comi cogumelos com algumas mulheres adeptas das religiões Druidas e Gaia, em Nova Iork. Cerimônias de anglicanos, metodistas, calvinistas – já assisti muitas. Dei a palma da minha mão para que a lessem, participei de uma sessão de regressão a vidas passadas, fui a retiros espirituais cristãos e orientais em fins de semana. Sem contar com os templos sagrados em Roma que visitei e o culto de santeria em Miami que participei. Reconhecidamente, e em nome da ciência, eu tomei alucinógenos, tentando infrutiferamente tomar notas sobre os diversos conhecimentos religiosos.

E EM QUE PAÍSES ISSO ACONTECEU? - Como existem mais de 300 mil locais de culto nos Estados Unidos, o meu país tem sido um terreno furtivo para a pesquisa. Mas eu gosto particularmente do Caribe. Estive também no México, na França, na Inglaterra, apesar de que a Itália, para mim, é o local mais cheio de santuários intrigantes.

QUAL FOI A SITUAÇÃO MAIS EXÓTICA E BIZARRA POR QUE VOCÊ JÁ PASSOU? - Testemunhar sacrifício de animais foi tão bizarro quanto revoltante. Mas eu diria que um breve caso amoroso com uma freira dominicana, que eu conheci durante entrevistas na República Dominicana, foi a mais exótica – poderia chamar também de experiência erótica religiosa.

QUAL SUA DICA AOS CURIOSOS RELIGIOSOS? - Eu recomendo que eles confiram os detalhes de cada religião, antes de comprar a ideia. Façam isso lendo os dogmas de cada crença, da mesma forma que você leria o relatório de um produto. Muitas pessoas fazem uma pesquisa mais minuciosa sobre o celular novo que vão comprar do que sobre a religião que eles herdaram da família ou a que aderiram no decorrer da vida. Os cultos, que são definidos como grupos religiosos que demandam lealdade a um líder, são os mais arriscados. Muitos são especialistas em explorar o carisma, que pode facilmente cegar alguém da realidade e torná-lo um fanático.

SE VOCÊ PUDESSE ESCOLHER APENAS UMA HISTÓRIA DE TODA A SUA JORNADA PARA CONTAR, QUAL SERIA? - Depois de todas as igrejas que visitei e as entrevistas com pessoas religiosas que fiz, o momento mais comovente de como a religião funciona ocorreu no leito de morte da minha mãe. Ela sentia um grande desconforto e visualmente sofria de ansiedade e medo. Eu segurei sua mão e disse a ela uma mentira: que logo ela encontraria meu pai, pois ele estava esperando por sua noiva. Ela abriu os olhos só mais uma vez e sorriu, antes de falecer.

COMO FOI O PROCESSO DE ESCRITA DO LIVRO? - Eu já tinha muitos anos de anotações das minhas pesquisas de campo, mas passei um ano comprometido com a rotina devota. Trabalhei sobre textos antigos, li doutrinas e dogmas das religiões, fiquei atento ao que alguns monges chamam de lectio divina, ou leitura divina. Eu tentei não abordar nenhuma ideologia religiosa com condenações pré-condicionadas ou preconceitos.

MAS VOCÊ CONSULTOU MUITAS FONTES, ALÉM DAS EXPERIÊNCIAS PRÁTICAS? - Eu precisei ler o Velho e o Novo Testamento inteiros, além do Corão, é claro. No livro, eu listo uma centena de textos religiosos que usei como fonte.

O USO DE CHÁS, COGUMELOS E SUBSTÂNCIAS PSICOTRÓPICAS FAZ PARTE DE MUITAS CRENÇAS. POR QUE ESSAS RELIGIÕES ADERIRAM A ESSAS SUBSTÂNCIAS? - O escritor Aldous Huxley, durante seu experimento com substâncias psicotrópicas, notou que elas abriam as chamadas portas de percepção. Muitas religiões dão grande valor aos sonhos, como se fosse uma maneira de conhecer a voz de Deus. Mesmo no Império Romano, praticava-se o que se chamava de mistérios de Elêusis, que recomendava ingerir cogumelos pelo menos uma vez ao ano, a fim de ver e experimentar o que apenas Deus sabia. No entanto, tal atividade pode ser prejudicial à saúde.

POR QUE A RELIGIOSIDADE, EM ALGUMAS PESSOAS, SE TORNA INSANIDADE? - Além do medo da morte, existe o medo da condenação eterna. Religiões que dão muito valor à vida após a morte e ameaçam quem não segue suas regras com a perspectiva de punição eterna geralmente levam seus fiéis ao fanatismo. Substâncias alucinógenas, rituais de jejum, automortificação e outros meios bizarros que as pessoas utilizam para atingir o êxtase religioso também costumam alterar a química do corpo, levando a um desequilíbrio mental.

NO LIVRO, VOCÊ FALOU SOBRE “NUDISMO RELIGIOSO”. COMO FUNCIONA ESSA CRENÇA? ELA AINDA EXISTE HOJE EM DIA EM ALGUM LUGAR DO MUNDO? - Ela decorre de uma interpretação do Livro de Gênesis. O pecado foi o que levou à prática de vestir roupas e ao matrimônio. Adão e Eva, quando possuíam a inocência pura, não precisavam nem de vestimenta nem de casamento. A nudez, segundo a religião, é uma prova de que eles atingiram o estado de graça e estão libertos de todas as restrições morais concebidas pela humanidade. Hoje, existe a Igreja Batista do Calvário Nudista, no Texas.

POR QUE A IDEIA DE APOCALIPSE ESTÁ TÃO INCRUSTADA NAS DIVERSAS RELIGIÕES? POR QUE OS RELIGIOSOS SE APEGAM A ELE? - Na minha pesquisa, eu descobri que mais de 80% dos cultos usam revelações de Agamemnon para arrebanhar seguidores. Novamente, o medo é a ferramenta que controla seguidores, especialmente quando envoltos na conversa de ter visões divinas.

VOCÊ ACHA QUE A RELIGIOSIDADE ESTÁ GANHANDO CADA VEZ MAIS FORÇA ENTRE OS HUMANOS? OU VOCÊ ACHA QUE A HUMANIDADE CAMINHA PARA A NÃO RELIGIÃO? - Na estatística, menos pessoas estão indo à igreja, enquanto muitos continuam querendo aderir a uma ou outra religião. O ateísmo está em ascensão em todo o mundo, e saindo do armário. Como a tecnologia e a informação estão cada vez mais disponíveis, novos deuses estão sendo concebidos. O terrorismo mundial também ajudou a abrir muitos olhos, para ver em primeira mão o que fanáticos religiosos podem fazer. Eventos atuais indicam que nosso próprio fim dos dias, ou pelo menos uma transformação significante de nossa cultura, possa ser instigado por alguma forma de insanidade religiosa.

VOCÊ CONHECEU E PESQUISOU DIVERSAS RELIGIÕES. MAS NO QUE VOCÊ ACREDITA DE VERDADE? - Eu acredito nas possibilidades do inimaginável. Como Stephen Hawking já notou, nós vemos o mundo a partir de uma perspectiva distorcida. Ele usa a analogia de um peixe em uma tigela redonda, observando todas as coisas se movendo em uma curva, devido à refração da luz através da água. Essa é a verdade para o peixinho. Seria necessária certa arrogância para pensar que nós realmente sabemos alguma coisa, não importa quantos livros nós tenhamos lido ou a graduação que possuímos.

EM SUA OPINIÃO, PARA ONDE VAMOS QUANDO MORREMOS? - Talvez, nossos átomos são colocados em um liquidificador cósmico, e nós vivemos como parte de qualquer outra coisa. Eu não tenho a mínima ideia. Quem tem? Certamente será uma viagem inacreditável, mas uma viagem que eu prefiro evitar pelo tempo mais longo possível. [Risos].

O QUE VOCÊ AINDA NÃO DESCOBRIU QUE QUER DESCOBRIR? - Se existe um Deus. Acho que, se ele (ou ela) existisse, deveria ser capaz de vir até aqui e arrumar todas essas muitas ideias religiosas de uma vez por todas. Ou mandar um texto para o mundo inteiro, ou algo do tipo. Mas até nisso muitos não acreditam.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

VENUS CITADINA – Um conto moderno

E ela chegou ao terminal rodoviário. Desceu do ônibus. Cidade nova. Estranha. Lugar novo. Caras novas. Pegou a mala pela alça e saiu caminhando em direção ao hall principal. Homens, mulheres, adolescentes a esperar amigos ou familiares. O clima estava exaltado. Alegre mesmo. O carnaval às portas era a prova disso. O odor de suor e perfume e tempo passado dentro do ônibus misturavam-se ao cheiro da nova terra que a recebia.

Buscou com os olhos. Navegou o olhar ao redor. Onde ele estava? Disse que estaria ali para recebê-la. Onde? De repente, ele atravessou a multidão e acenou. Sorria. E chamava o nome dela. Ela sorriu e gritou o nome dele. Saiu quase a correr até sentir o corpo seguro por mãos poderosas, fortes. O cheiro do macho penetrou em suas narinas. Ela aspirou fundo. Gostou.

“Pensei que não vinhas”. “O ônibus atrasou meia hora”. “Sei. Avisaram aqui. Eu estava a estranhar e perguntei”. “Puxa! Que cheiro gostoso você tem!” Ele riu. Apertou ela nos braços. Colou-se a ela. Ela sentiu a rigidez do membro de encontro ao ventre. O corpo arrepiou-se todo. Ele notou. Segurou ambas as faces dela com ambas as mãos. Ficou a olhá-la. “Maravilhosa!”, disse. Ela ficou meio sem jeito, mas não afastou o corpo. Estava gostando do contato do macho contra si mesma.

Olhos com olhos. Ela notou que desejava. Ele também notou a ardência. A boca a salivar o forte desejo. Ela entreabriu os lábios. Ofereceu a boca para a dele. Coladas uma na outra ela ofereceu a língua enfiando-a na boca dele. Ele sugou a língua molhada e macia e saboreou a saliva dela e também ofereceu a dele e ela a tomou para si, sugando-a com um carinho e um desejo incontido.

Após o beijo, os olhos continuaram nos olhos. O mundo ao redor não existia. Ele a enlaçou pela cintura. “Vamos?” “Vamos, sim. Preciso tomar um banho. Estou suja e suada e de garganta seca” Foram até um dos bares do terminal rodoviário. Uma cerveja gelada encheu dois copos. Ele notou que os bicos dos seios dela estavam endurecidos. Os pelos das coxas mostravam um arrepio constante. Ela seguia o olhar fascinado do macho.

De repente, pousou a mão na virilha dele e sentiu a pulsação do membro como se fosse um coração. Sempre a olhar para ele, apertou suavemente por cima da calça jeans. Ofereceu de novo a boca. Sentiu a mão áspera e quente dele a acariciar sua coxa direita, indo e vindo. O beijo agora foi mais demorado. Mais sutil. Mais daquele mais de saboreamento de homem para mulher e de mulher para homem. Apertou mais o membro rígido e sentiu a mão dele deslizar para o centro de suas coxas e por sobre o short acariciá-la destemidamente por baixo da mesa do bar.

Salivou como louca. Estava úmida lá por baixo. Sentia a calcinha colando-se na pele vaginal devido à caricia que ele fazia com a mão por sobre o diminuto short. Parou de beijá-lo. Ele tomou um gole de cerveja. Ela fez o mesmo. Voltaram a se olhar. “Estou louco por você!” “Você está me deixando louca!” “Isso é bom! Com tanto tempo que a gente se conhece e só agora eu consigo pegar em teu corpo” “Antes era virtual – disse ela – Agora é real”. “Sim, real e excitante. Quando te via no monitor do computador ficava com um tesão danado. Agora...” “Agora?” “Você nem imagina. Que palavras escolho para definir isso?” Ela riu. Um riso cristalino. Os lábios carnudos tremeram durante o riso. “Quero ser toda tua! Quero!” “Vamos resolver essa questão logo, logo”, disse ele.

Saíram de mãos dadas do bar. Pegaram um táxi. No rumo ao centro da cidade, os beijos se multiplicaram. Ainda que sentissem sobre eles os olhos do motorista, não ligaram para isso. Chegaram ao hotel do centro da cidade. Uma hospedaria simples. No balcão foram atendidos por uma recepcionista sorridente. Primeiro andar. Quarto 1002. Receberam a chave e subiram abraçados. Já no quarto jogaram-se nos braços um do outro e voltaram aos beijos e carícias afoitas. Em pouco tempo ela estava apenas com a calcinha rendada e minúscula e ele de cueca, colados ambos sobre a cama, rolando e se acariciando. Os pequenos seios eram sugados por ele de tal forma que os gemidos dela batiam de parede em parede e voltavam a se alojar na própria garganta. A mão dela agora segurava o pênis rijo e endurecido e acariciava destemida, sentindo o pulsar, sentindo as veias grossas, sentindo o liquido a escorrer pelo orifício uretral.

“Ahhh! Espera, querido! Espera!” – pediu, quando ele começou a beijar e a lamber cada pedaço de sua carne, deslizando pelas axilas, pelo pescoço, no centro dos seios e descendo, descendo... “Aiii! Espera! Preciso tomar um banho! Estou suada! Não estou toda limpa. Aiiii! Que gostoso! Vaiii! Vaii, amor! Vaiii!” E ele ia e vinha e descia com a língua adentrando pelo ventre, deslizando pelo lábios vaginais, cheirando e lambendo e saboreando os líquidos a escorrer da carnuda boceta, mordendo suavemente os lados das coxas negras. Ela o agarrava pelos cabelos. E ainda que pedisse um paradeiro aquilo para ir ao banho, também pedia mais e mais os mergulhos daquela língua, as mordidelas daqueles dentes de macho entre as coxas, na carnudez da boceta...

Gritou! O forte orgasmo fez deslizar os líquidos interiores para a boca e a língua dele. Gritou e buscou abafar o grito com um dos travesseiros da cama. Ele estava a chupar de forma frenética e compenetrada o clitóris e este excitado ao extremo ficou na parecença de um botão a tentar fugir de dentro dela, a tentar fazer-se flor. Ele sugava. Ele lambia. Ela chorava. Ela gemia e dizia não e dizia sim e tentava fechar as pernas e era impedida pelos braços fortes dele. De repente, a noite fez-se dia e relampejos de estrelas e cometas e meteoros um mergulho aos piscares de luzes coloridas e frio intenso e sol intenso e quase uma subida em voo direto a maior das galáxias universal. Ao retornar do mergulho desse prazer, ele estava a olhar para ela, deitado de lado, acariciando suavemente o corpo nu dela.

“Pensei que estava morrendo e indo pro céu!”, disse ela. “Mas estou viva!”. “Foi bom? Diga se foi bom”. Ela riu. O riso cristalino e feliz encheu o quarto, bateu em todas as paredes. Fez voar os lençóis da cama. E voltou de novo para ela e novamente repetiu-se até que ele a calou com um enlaçar o corpo e um colar boca a boca de mais de minutos. Ao estacionarem o beijo no tempo e no espaço, ela viu o quanto tinha sido possuída pela boca e pela língua e pelos dedos do homem e ainda estava suada e suja da longa viagem. “Você é tão louco! Preciso tomar um banho! Quero ficar cheirosa pra você. Quero ser mais toda tua” “Você é toda cheirosa lavada ou não lavada. Mas vá ficar mais cheirosa ainda porque teremos tempo para tudo”. “Sim. Sim. Sim. Teremos tempo! Muito tempo!”

Pela janela do quarto zuniu o vento. Enquanto saía da cama nua e negra e bela encaminhando-se para a ducha ela observava os olhos do homem a percorrer cada pedaço de sua carne. Sentiu-se poderosa e dona dos milhões de artifícios postos pela deusa Citérea nas mãos de todas as mulheres. Ele amava. Ela amava. O que será que acontecerá mais em nosso breve tempo?
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@ Copyright by Rafael Rocha - Recife, 5 de janeiro de 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

ANCESTRAIS ALIENÍGENAS

E se a vida na Terra começou no espaço? Milhões de pessoas aceitam a teoria de que formas de vida inteligentes tem visitado a Terra há milhares de anos e eram adorados como deuses pelos homens primitivos. Monumentos como Stonehenge e a Ilha de Páscoa seriam os últimos resquícios de uma antiga civilização alienígena? Baseado no controverso livro Eram Os Deuses Astronautas, de Erich Von Daniken, a teoria dos alienígenas ancestrais tem abalado as crenças no progresso da humanidade.
Desde inexplicáveis super estruturas, conhecimento do sistema solar, matemática avançadíssima, desenhos antigos de criaturas estranhas nas cavernas, restos de pistas de pouso no Peru e textos indígenas que descrevem máquinas voadoras dos deuses, até a capacidade dos antigos em produzir eletricidade, entre outros, são citados por Von Daniken como prova de que astronautas eram bem conhecidos dos nossos antepassados, e que a humanidade não evoluiu em isolamento, mas com ajuda de viajantes de outros mundos. Produzido com a colaboração E PARTICIPAÇÃO exclusiva do próprio Von Daniken, Ancient Aliens busca explorar evidências da influência de super humanos sobre o homem e faz novas expedições, embarcando em uma busca ao redor do mundo para buscar e avaliar essas provas e tentar obter respostas, concentrando-se nas descobertas dos últimos 30 anos, incluindo a até então inexistente análise de DNA e recentes descobertas e decodificações de artefatos antigos encontrados no Egito, na Síria e Iraque (antiga Suméria), que podem conter a chave de muitas destas respostas. Como todo bom documentário, em especial os do History Channel. Ancient Aliens (Ancestrais Alienígenas) não impõe, apenas sugere, e chama o espectador ao raciocínio, oferecendo, para isso, argumentos sólidos, prós e contras o tema abordado, para que cada um forme sua própria opinião.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

MORAL RELIGIOSA CRIADA ATRAVÉS DO MEDO


“O juízo moral tem em comum com o religioso o crer em realidades que não existem”. Assim Nietzsche desnuda o enquadramento que se pretende dar aos seres humanos no ideal cristão. De acordo com ele o que se “exige do filósofo é que se coloque além do bem e do mal, que ponha sob si a ilusão do juízo moral”. Os homens com a vontade insana de se purificar dos pecados resolveram seguir a moral criada pelos representantes da divindade (sacerdotes, padres, bispos, clérigos, pastores). Criada por tais pessoas, tal moral, diz Nietzsche, é, aparentemente, uma autoridade superior à qual se obedece, não porque ordene o que é melhor, mas simplesmente porque ordena, e não obedecer a tal autoridade torna-se algo imoral.

Assim é criado o medo. Através do medo frente a tal “inteligência superior” que ordena, tem-se que seguir a lei dessa moral. Isso também tem ligação direta com o medo de um poder incompreensível e impreciso de qualquer coisa que ultrapassa o individual humano. Medo repleto de superstição. Sim, porque foi através do temor a um deus, temor esse espalhado pelos sacerdotes, que se tentou melhorar o ser humano com o que denominaram de moral. Mas, camaradas, o que podemos dissertar aqui sobre a moral no âmbito nietzschiano?

Basta que tentemos a simplicidade na leitura em “O Crepúsculo dos Ídolos”. Está lá na página 69: “A domesticação do animal humano e a criação de uma espécie determinada de homens são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém, realidades que o melhorador típico, o sacerdote, ignora e não deseja saber nada a respeito. Chamar melhoramento à domesticação de um animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira, Contudo, duvido muito que o animal acabou melhorando. É debilitado, é feito menos perigoso; com um sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo. O mesmo sucede ao homem domesticado, a quem o sacerdote tornou melhor”.

Para o filósofo, a moral cristã é repleta de malefícios. E tais malefícios foram incutidos nos seres humanos. Tal tipo de moral enjaulou o humano e ao domesticá-lo o transformou em algo doente, estabelecendo nele valores niilistas porque uma parte de sua natureza foi negada para ceder espaço e lugar a uma natureza, mutilada, oposta ao racionalismo. Onde, pergunta Nietzsche, se encontra o humano no homem cristão quando nega sua sexualidade, quando nega seu corpo, quando nega seu amor como o encontro com o outro, quando nega sua paixão também no encontro com o outro, que pode ser até mesmo sexual? Simplesmente seria mais fácil dizer que não tem validade alguma ser cristão se para ser isso temos de viver ameaçados com uma punição terrível por nos comportarmos mal na presença de um deus.

Ora, no raciocínio que propõe o filósofo, o erro da moral está em crer que seus princípios são absolutos e ideais. A moral, como instituição, serviu para retirar o homem do estado de natureza, legalizar a vida em sociedade, perpetuar os costumes e dirigir as sociedades pelas gerações como sua cultura, mas cultura falsa porque foi construída por outros homens e jamais por uma divindade. Assim, tal moral “imortalizou a prática religiosa na vida cotidiana, impôs a noção de culpa ao homem que a transgredisse e determinou as relações comerciais e afetivas através dos castigos”(...)

Nietzsche propõe assim a transvaloração dos valores, o que é o mesmo que a abolição da moral cristã, fato determinante para abolir a principal base dessa moral que é a religião que domina o Ocidente há mais de dois mil anos: o cristianismo. Friedrich Nietzsche não pregava uma revolução como Karl Marx. O que podemos perceber e perceberemos na leitura e releitura de seus escritos, é que cada um que o ler se conscientize acerca dos seus argumentos e que perceba que ser cristão é entregar sua vida para uma fantasia ou para a vontade da moral dos padres, bispos, pastores etc.
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Textos consultados:
NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo. São Paulo, Martin Claret, 2000
…................., Crepúsculo dos Ídolos, Ediouro, 1999.
…................., A Genealogia da Moral. In: Os Pensadores. V. XXXII. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

A EUROPA FALIDA E A ASCENSÃO ECONÔMICA DA CHINA

 A Velha Europa está falida! Sim! Falida! Com raras exceções, onde podemos incluir a rica e poderosa Alemanha, todos os governos do continente europeu estão às voltas com déficits explosivos e dívidas impossíveis de serem pagas. Tais dívidas são consequência das medidas tomadas por esses governos de intervirem para socorrer bancos europeus em crise.
Os líderes da Zona do Euro após reunião em Cannes, no dia 27 de outubro de 2011, decidiram cortar pela metade o valor da impagável dívida grega.  Enquanto isso, Nicolas Sarkozy, presidente da França, telefonou ao chefe de Estado chinês, Hu Jintao, pedindo socorro urgente. Tal pedido foi devidamente reforçado nos dias subsequentes pelo alemão Klaus Regling, chefe do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), que viajou a Pequim com o pires na mão.
De acordo com as últimas tomadas de posições na Europa, a China parece estar nadando em dinheiro. As reservas chinesas, que no final de setembro deste ano subiram a US$ 3,2 trilhões, constituem, atualmente, um invejável excedente econômico. Ou seja, uma poupança externa que em maior ou menor medida, seguindo os desejos dos líderes da EU, pode ser usada para atenuar a crise da dívida europeia. A falida Europa põe olhos grande no ouro de Pequim. 
Tal pedido de esmola dos “pobres” europeus despertou paixões nacionalistas na França e ainda causou constrangimento em diversos políticos conservadores do Velho Continente. No entanto, a grande necessidade de dinheiro solapou orgulhos patrióticos e falou mais alto.  Este é um fato extraordinário e emblemático no que tange às mudanças objetivas em curso na economia mundial. O poder econômico desloca-se do Ocidente para o Oriente. Sai das mãos das potências capitalistas lideradas pelos ianques para a China Comunista. Por que aconteceu isso? Simples! Tudo é decorrente de duas leis básicas que o capitalismo reproduz imperialmente: o desenvolvimento desigual das nações e o parasitismo econômico do Primeiro Mundo. O que surpreende, porém, é a rapidez da mudança. 
A China cresceu ao ritmo médio de 10% ao ano nas três últimas décadas, e hoje, seu poder econômico está ligado ao superávit obtido no comércio exterior, principalmente no intercâmbio com os EUA, e aos investimentos externos realizados pelas transnacionais na economia chinesa, atraídas pelo crescimento e a perspectiva de maximização dos lucros. Enquanto isso, as potências capitalistas avançaram, no mesmo período entre 2 a 3% ao ano, em meio a diversas crises. O interessante é saber que os recursos financeiros em poder do governo chinês, dirigido pelo Partido Comunista existem na forma de investimentos externos, principalmente em títulos. 
Tais recursos não estão entesourados. Os EUA são o principal destino dessas aplicações. Portanto, Pequim é o maior credor da Casa Branca, com mais de US$ 1 trilhão em títulos públicos do Tesouro estadunidense. Não se pode também esquecer a Europa, que também possui alta dívida com Pequim. Mais de US$ 500 bilhões foram investidos pelos chineses no Velho Continente. Atualmente, os europeus ainda esperam ampliar mais essa participação. A Europa é o maior mercado para os produtos chineses, absorvendo um quinto das suas vendas. A seguir vem os EUA, com 18%. Portanto, hoje, a China é a maior exportadora mundial.
A atual conjuntura anárquica da crise européia serviu de aprendizado para os chineses. Ela mostrou os riscos embutidos nos investimentos em títulos, mas eles estavam atentos, pois aprenderam através de Karl Marx, que computava esses investimentos como capital fictício, cujo valor pode se depreciar, como ocorre com os ativos em dólar, ou mesmo derreter. Exatamente por esse motivo, os chineses preferiram investir suas reservas em ativos reais, através de investimentos diretos, adquirindo empresas (como acaba de ocorrer com a Swedish Automobile NV – Swan –, proprietária da Saab) ou instalando novas unidades produtivas.
Hoje, as reservas da China são um poderoso instrumento que projeta seu poder econômico pelo mundo inteiro. Definindo em termos amplos, a força da riqueza nasce do trabalho do povo chinês e se reproduz principalmente na indústria, disseminada no comércio exterior. Isso transformou a China numa potência financeira, revolucionando a geografia econômica e política. Estamos vendo, portanto, uma nova ordem econômica em ascensão.

BOÊMIO (Do meu livro MARCOS DO TEMPO)

No meio da noite o desejo me alimenta:
Mesa de bar, rum, cigarros e cerveja.
A intensidade do anseio só aumenta
E faz o corpo poetar isso que almeja.

Tomar uns goles a olhar ninfas noturnas!

E na fumaça do cigarro ver segredos
Esfumando-se nas solidões soturnas
Dos hipócritas e dos homens tredos.

Copo vazio! Chamo o garçom: - Amigo!

Mais uma dose a minha noite necessita
Antes que o sol possa encerrar esta ilusão.

Bêbado e etéreo renasce meu castigo

Ser puro e casto como esta noite grita:
Amante louco da vida e da paixão!

TEMPOS IDOS

Deixando em sal as minhas águas da península
Tristeza do ter sido mundo em tempo exilado.
Como dando sabor às lagrimas do desterro
O meu outrora da vida ter-me desajustado.

A dor fluiu! E os dias ficaram inúteis e vazios.

Tal presença de glória tanto eu ousei sonhar
Cabelos brancos a emoldurar o belo crânio
A caminho de Caronte essas geleiras vão passar.

Lembro a voz na mesa: Eu não te reconheço!

Preso o pranto enregelou-se em pedra a dor
Marcante dor a invadir a espécie de mim.
Lembro a voz sorrindo a desprezar o amor.

Paixão interrompida. Dá-se e tira. Tudo a se acabar.

Mundo que expira. Vai-se para outros mares a flor.
Tal os versos mais infantes a sonhar desditas.
“Fonte não me leves, não me leves para o mar”.

Eis no tempo a fonte fria. Sorriso zombador.

A matar o esplendor maior daquela triste lira.
Antes de ser jogado ao mar o corpo frágil
Salvaram-no as areias e o perfume da ilha.

Braços amplos acolheram o poeta incendiado.

Deram-se mãos à paixão na jovem pressa da vida.
O amor fluiu venoso em novo corpo recriado
E renasceu na glória da ilusão imperecida.

Cabelos brancos emolduram o belo crânio.

Tais espessas geleiras no caminho de Caronte.
E a voz repete na vida: Não mais te conheço!
Não sei quem és! Nem imagino de qual lugar de onde...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

TEMPO MARCADO

Quando a gente se achar por essas ruas do mundo
O que irá rolar?
Serão águas deslizando de cascatas gigantescas
Ou um pequeno rio correndo para o mar?

Quando meus olhos olharem dentro de teus olhos
O que irão falar?
Dirão talvez que teus piscares e olhares
Querem me decifrar?

Quando meus dedos enlaçarem os teus dedos
Como irão se apertar?
Esquentarão palma a palma as duas mãos
Para não acenar

Aquele adeus que se apresenta sempre perto
Querendo ser distante.
Duas mãos enlaçadas fazem um sonho irreal
Tornar-se delirante.

E assim a vida marca outra vida por esse caminho
De corpo e de olhos e de mãos.
Marcando horas e minutos esperados nesse tempo
Mesmo que sejam vãos.

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@ Copyright by Rafael Rocha - Recife, 23 de outubro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

DESATINO NOTURNO

Dance a vida nas ruas e nas mesas dos bares
Onde o meu novo poema possa renascer.
Dance vestida com as cores de todos os lugares
E traga novos e confusos lupanares
Mulheres para me enriquecer.

A música traga a paixão junto com a bebida
E que o sabor da cerveja no ritmo selvagem
Faça a mais feia mulher tornar-se embevecida
E linda e disposta a usufruir a vida
Insinuando mais coragem.

Assim a noite fica mais ampla e risonha
E mesmo bêbado de música e de algaravias
A paixão estimule a alma de quem sonha
E que no meu verso bêbado ela ponha
As luxúrias ainda que tardias.

E no sumir das trevas ao sol beligerante
Inimigo dos noturnos e quentes suores
Una em um leito os corpos recalcitrantes
No ir e vir que jamais serão bastantes
À reinação dos amores.

Na mesa do bar fique marcado o destino
Do homem e da mulher ainda a saber
No sol do outro dia quanto deu em desatino
O tudo que dançamos bêbados sob o hino
Da loucura de viver.

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@Coyright by Rafael Rocha - Recife, 21 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

PALAVRA

Dentro em mim a palavra canta livre e profana
O momento dos acasos. E nas coisas da memória
Vivem fracassos também feitos na história
Dos amores, risos e tristezas. Hoje tudo engana.

Nas incertezas mais cruéis desta lide insana
Ao ser poeta menor buscava minha glória.
Hoje no poente da vida a alma merencória
Descobre no mundo sua perdição tirana.

E lembranças guardadas já desaparecem
Levando os paradoxos cheios de ideias
Visando novos rumos aos que me esquecem

Nas névoas do futuro sem sonhos e epopeias
Nos fatos e nas fotos que ainda enriquecem
As livres palavras das minhas odisseias.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife 15 de outubro de 2011

DESCONHECIMENTO

Como vou conhecer melhor o abandono
Se a morte enche de terror as madrugadas?
Ainda que sejam coisas exageradas
Estão presentes. São inimigas de meu sono.

O garçom enche o copo e eu abro alas
Olhando ao derredor como se dono
Do prazer de viver espantasse o outono
Desta vida cortejada em falsas falas.

Ninguém olha e eu brindo em segredo
Ao delírio causador do grande medo
De partir para o inexorável nada.

E quando o bar fecha as portas eu lamento:
Pena não saibam os sóbrios o sentimento
Do bêbado a dormir sorrindo na calçada.

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@Copyright by Rafael Rocha - 15 de outubro de 2011

OUTUBRO 2011

Outubro! Tempo houve em que sonhos perturbavam
À vista de mim! À vista de todos! Tempo em que sonhava
E nem vi o tempo passando com tanta inexorabilidade
E os sonhos perturbadores tornando-se fantasmas.
Outubro! Tempo de minha espreita a sorrisos vários
De amigos, dos irmãos, pais, tios e tias e mais pessoas.
Meu tempo suprimia a saudade e vivia célere nas ruas.
Nem o vi transformando-se em um nevoeiro de passado.

A vida criou reinações nos quintais e nas ruas da cidade.
Rolou e pintou e bordou minha história para todo lado.
Não deu tempo para o corpo satisfazer a vontade feliz
De estar moço e são e vivo e vivendo longe da desembocadura.
A vida fez-se um rio depois dos quarenta anos e mostrou
Um caminho alongado cheio de pedras, cantares e enigmas.
E de repente agora estou vendo a aproximação do oceano
E a foz para onde as águas caminham precipitadas.

Outubro de 2011! Não mais sonhos perturbam o pensar
À vista de mim! Muitos deixaram de pensar e partiram
Dentro da inexorabilidade do tempo de cada um deles.
Tornaram-se mais do que fantasmas. Deixaram de ser.
Outubro de 2011! São tristes os sorrisos dos que aqui estão.
Os rios que sobraram e que ainda não viram sua foz.
E eu mesmo não mais posso suprimir as saudades do antes.
Hoje elas habitam em mim como fantasmas do passado.

Um dia (quiçá num outubro) estarei consumido e morto.
E ninguém imaginará como eu gritei versos à eternidade.
Nada imaginará como eu pude ser este teorema absurdo
Posto num espaço chamado Pernambuco capital Recife.
Mas seria interessante doar um fruto de outubro novo
A quem soube saber quem eu era e quem eu não era.
Ainda que saiba o quanto o poeta enganou ao homem
E o quanto o homem enganou a realidade do poeta.

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@Copyright by Rafael Rocha - 15 de outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

COISAS DE PENSAR

Se pensar preenche lacunas
Um homem se olha de viés
E destroça a casa dos sonhos
E pisa uma rosa aos seus pés.

Só pensar faz o passado vivo
Com a ideia de ser outra vez
No impossível laivo do futuro
Que o presente ilude mês a mês.

E dia e hora e minutos, gesto
Do que é já foi e sendo não será
Um somatório agregado ao sempre
Apenasmente não reviverá.

E pensar traz o iludível da memória
E a busca interrompida no jardim
De uma flor extinta e repelida
Pelo status do ouro mais afim.

Para todo final é sempre o mesmo
Recomeço de histórias passageiras
Que o pensar traz subitamente
Como a possibilitar suas quimeras.

E cria a indecisão da vida:
Entre dois amores há esperança?
Ninguém nota: dentro do corpo adulto
Baila sempre uma alma de criança.

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1984

RITMO DA ETERNIDADE

O sol da carne é transparente
Circundando uma teoria interrompida
No quadro-negro da vida.

A lua da carne é poeira inexistente
Circundando uma hipótese tramada
No papel das leis genéticas.

As estrelas da carne são ruas vazias
Circundando uma lição desaprendida
Nas evoluções das leis universais

Sol, lua e estrelas...
Nas leis de suas gravidades
Circundam meteoros e cometas
E os átomos dos que se foram
Abençoados pelos criadores de deuses
Homens e raças
Sangue e seiva
Espelhos elevados à eternidade.

Por omnia saecula:
Eis a verdade!

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1984

PARTIDA

Ao tempo do ato corpóreo do amor
Andarei como um mendigo
Solicitando a todo vão momento
A dádiva que teu corpo liquefez

Em água e ar e ventos frios
Obrigando-me a criar velhos paradoxos
Direi o sonho em velada forma maliciosa
Ao passeio triste do teu último sorriso.

Velho molusco adormecerei nas areias
Das praias mais ermas do planeta
À luz da lua mais amarela que triste
Ao entardecer mais noite que luz.

E serei irônico como um fâmulo
Ou palhaço sem circo:
Olhando a solidão do meu amor
Dentro de meus gestos de mendigo.

E como velho credor do iniludível
Sobre o fio esticado da esperança:
Equilibrado sobre o ato desse amor
Abrirei meus braços. Partirei!

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1986

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MILÊNIO

Séculos defronte
À fome em dor
Homens gritam
Sem esperança

Crianças a mil
Desentendidas
Sonham espaços
De luz e amor

Nas ruas vivem
Desapegos
Cruzes negras

Nas meias-noites
Almas vazias
Clamam por luz.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

A UMA ADOLESCENTE (1985)

Sua alma na espera dos acontecimentos
Foge da humildade derramada de mulher
E agarra urgentemente o desejo carne
Que além de desejo é algo impalpável.

E pergunta se eu sou um poeta tímido
Ou noturno ou de alguma base futurâmica.
E faz isso com um sorriso malicioso
Ainda a não crer na verdade de um futuro.

Sim. Eu sou um poeta e ando disfarçado
Dentro de uma timidez elástica e pura.
Sim. Eu sou um poeta porque estou sozinho
E sereno e derramado na escuridão noturna.

Eu sei que sua alma é uma estrofe sibilante
A voar ao encontro de uma árvore fictícia
E a fazer do corpo um pedido imenso de carícias.
E a fazer do sonho o pão nosso de cada minuto.

Um dia...
Quando as suas mãos enrugadas
Tocarem a fímbria jovem de outro corpo
Ela quererá ser poeta e ver-se-á sem nada
Tamanho foi urgente seu desejo de carne
Como foi seu mundo.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

CARTA (1979)

Olha, amada:
Na verdade só queria mesmo fazer
Milhões de perguntas
Nunca parecidas, estranhas sim
Sentindo o delírio
Da descoberta dos motivos.
Mas esta carta (será mesmo?)
Vai voando aos teus portões
Buscando a descoberta
Dos melindres, dos erros
Das coisas diferentes
Que o poeta possa ter feito.
Agora
Limito-me a dizer:
Eu vou indo como sempre
Sério e desconfiado e simples
Tentando saber o que
Faz a demora da resposta.
Tantos dias: Dez? Onze?
Conta perdida
Na minha máquina de cálculo.
Só peço um pequeno toque
Algumas linhas curtas
Uma resposta
Pois se me demoro
Não é por prazer
Quiçá uma imperfeição
Tudo como aquilo
Que torna o tempo longo
E a vida curta
Paralítica
Dentro dos corações.
A carta (será mesmo?)
Só quer perguntar:
O que aconteceu?
Estranho, como creio
(espero ser engano)
Houve uma partida
E não sei em que ninho
Tua ave foi pousar
E mais que tudo
Eu escrevi rápido
Falei coisas minhas
E vivi depressa.
Pena que a resposta
Não tenha vindo
Descobrir a última invenção
Do meu sorriso.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

JAZIGO

Aqui ele jaz! O corpo morreu! Nada mais deve
Na partida recordar o quanto somos mortais.
Aqui ele jaz! O momento passou! Tudo é breve.
De instante a instante o homem é um ser fugaz.

No poema mais simplório que na tumba escreve:
Aqui jaz um alguém. Ele foi e nunca será mais.
Chore por ele, amigo, pra deixar a saudade leve.
Esse corpo, enfim, conseguiu encontrar a paz.

Não diga adeus. Isso vai trazer mais amargura
Ele partiu e nada irá fazer escutar a tua voz.
Seja ela um som cordiano repleto de ternura.

E não lamente o jazer do corpo nessa terra fria.
E não prometa a ninguém: Ele voltará depois!
Promessas vãs assim só aumentam a agonia.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 7 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A INVENÇÃO DO HOMEM

O homem inventou deus no meio da rua
E pinçou leis, códigos e mandamentos
Para dominar a terra, os planetas e a lua
E tudo aquilo que produz os movimentos.

E a invenção cresceu em alto e em largura
E o homem viu-se louco em mil momentos
Criou vários assessores para tal loucura
Visando viver no fio dos encantamentos.

E vieram os papas, padres, bispos e pastores
E acabaram com a ideia assim tão bem escrita
Resolvendo ficar ricos com as preces e favores.

E o homem agora é o instrumento da desdita:
O deus criado amaldiçoa os seus louvores
Enriquecendo igrejas com sua ilusão maldita.

TESTES

O amor faz amor e rima com dor
E flor e amargor e ardor e é cantor
E tem um sabor de se eu me for
Serei um penhor ao teu dissabor.

Dor é amargor e também é sabor
De amor já perdido todo o ardor
A fazer o pintor trocar sua cor
No clamor que por ele gritou.

E a fazer o poeta poetar sua dor
Por um caminho onde continuou
O verso maldito que por cá passou

No corpo macio que ele abraçou
E onde se fez e por onde dançou
A última ninfa com que sonhou.

RECLAMAÇÃO

Já de um tempo que a história me arrasta
Na busca da verdade e no anseio e nem sei
Se existe humanidade nessa terra vasta
Atacada pelo homem desobediente à lei.

Minha vida reclama dessa árida madrasta
Benzendo a raça humana como líder da grei
E sentir essa maldição da poderosa casta
Superior a tudo aquilo que eu imaginei.

Merda de sonho! Onde o ponho nem sei mais
Esse assaz humano pensar ladrão e assassino
A fazer de seus dotes esperança tão fugaz.

Merda de escrever este soneto em desatino
Sentindo um choro longo atrapalhar a paz
Do caminho a restar no badalar de um sino.

DOS HOMENS SIMPLÓRIOS

Palavras há perdidas e loucas para ganharem vida
Homens há onde tais vozes vivem e se permitem
Encontrar um porto ou alguma guarida
Onde possam dizer o quanto vivem
Declamando as sílabas das inverdades.

Palavras ainda voam e os homens fazem-se cegos
Ajoelham-se em altares como ensandecidos
Elevam orações às miragens dos seus egos
Não se imaginam homens perdidos
Adorando tantos símbolos e deidades.

Rastejam os corpos buscando algo igual à luz
Esquecem seus contraditórios sentimentos
Nos olhares hipnotizados algo mais traduz
Em seus mais simplórios pensamentos
A ignorância e o mito de um homem na cruz.

Palavras há voando em cores de todos os matizes
E mulheres e homens mergulham nos precipícios
Das mentiras ditas e escritas e feitas cicatrizes
Nos seus equinócios e nos seus solstícios
Onde o medo inflama a busca pelos paraísos.

Rastejam as dores humanas em todas as direções
E a ópera popular supera a realidade dos fatos
Nem vêem morta a bela Inês do poeta Camões.
Nem vêem a ilusão e o acaso vindo desses atos.
E deixam-se assaltar pelos bandidos das religiões.

A VOZ DO HOMEM NO CAMINHO

Meu caminho foi desenhado como um rio de pedras
Onde águas deslizam por sobre areias subterrâneas.
Venho caminhando nas margens escondidas dessas águas
A buscar aquilo que o mundo deve a todos os poetas.
Se o ritmo trouxe minha memória até aqui tão perto
Pretendo receber o que me é devido
Antes de o rio subterrâneo despencar no mar de algum deserto.

Aos meus lábios trago vozes extraordinariamente metafóricas.
Ainda que meus ouvidos não sejam grande coisa no mundo
Venho caminhando nessas metáforas desde saber-me gente
A tentar desenhar o que tantos humanos jamais viram.
Se as tintas de minhas pinturas são tão rupestres aos olhares
Ainda assim quero receber o que me devem
Antes que as metáforas causem danos ao verso solto nos ares.

Não sei quem ou o quê me trouxe até este espaço vazio e oco
Nem sequer resolveram perguntar se eu tinha tento em vir.
Vim de um homem e de uma mulher que se amaram um dia
E também buscaram fazer no mundo uma reinação de sonhos.
Se a verdade desse amor me deu carne e osso e olhos e vida
Agora é que desejo receber essa dívida
Antes de a perdição criar uma estrada sem cor e sem saída.

Quero um passaporte novo para a ida sem precisar da volta.
Abram a fronteira para meu poema passar sem percalço algum.
Eu quis tanta coisa para mim e ganhei tão poucas glórias.
E dessas coisas poucas eu sou mais o máximo que o mínimo.
Se nesse assombro ao ler-me tantos olhos em mim pousam
Por tal fato desejo receber com juros o que me devem
Antes de os assombros tornarem-se coisas que não ousam.

Dêem-me licença para voar dentro de minha força!
Dêem-me licença para ser mais livre que tantos!
Não deixarei que forças fantasiosas molestem meu tempo.
Jamais serei fustigado por mentes imbecis e escravocratas.
Se se escandalizarem com esse poder de minha liberdade
Matem-me! Mas ainda morto irei atravessar toda a vida
Dono de meu destino. Dono de minha mais inteira verdade.

domingo, 18 de setembro de 2011

LOUCA OBSESSÃO

Pensando no teu corpo eu canto um velho fado
Levo o meu sangue a escorrer a teu lado
Invisível e esperando ameigar a paixão.
A saudade obriga a carne a elevar um brado
Ainda que me chamem de velho safado
Pretendo degustar os sabores de tua amplidão.

Mulher a habitar meus sonhos mais inteiros
Suaves espaços de suor, de pelos e de cheiros
Estás viva nos meus versos em louca obsessão.
Mulher da flor cativa odorosa aos canteiros
Dos seios, das axilas, das coxas e ligeiros
Desejos de sexo insano a criar louco tesão.

Pensando em tua boca carnuda eu derramo
A teu anseio maluco de querer saber se eu amo
Ou se apenas estou a plantar uma ilusão.
Mulher a fazer delirar tudo que eu chamo.
Dá-me o bramido retumbante que reclamo:
- Vinde a mim saciar essa fome de paixão!

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

REPULSÃO

Tenho repulsão às vozes dos poetas incoerentes
Orando desvairados ao pé de cruzes e de imagens
No mundo e neste agora eles vivem tão-somente
Às fantasias de cristos, espíritos santos e miragens.
Não buscam ver a realidade milenar do mundo
E cantam nas entrelinhas as odes mais sacrossantas
Imenso é o medo de morrer e mergulhar no fundo
Do ódio do deus que rege seus versos de pilantras.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

AINDA

Ainda que tarde eu acorde o mundo espera.
Ainda que eu não saiba aonde me leva a vida.
Ainda que as traças da morte vivam à espreita
Não sei o quanto do acordar virá de mim.

Ainda que o sol bata na janela e mostre a luz.
Ainda que o calor da manhã queira despertar-me.
Ainda que a preguiça domine os átomos corporais
Não sei quanto o viver de mim é assinalado.

Os chinelos esperam meus pés ao pé do leito
Numa pergunta muda: aonde hoje vais me levar?
Gosto de estradas planas e de terras molhadas
Para proteger dedos e artelhos no teu caminhar.

Ainda que o dia esteja à espera do meu corpo.
Ainda que a pele respire o mais intenso ar.
Ainda que a solidão esteja cruel, viva e presente.
Os versos não pretendem nada mais do que voar.

Ainda que o tempo traga frêmitos equivocados.
Ainda que o amor dê-se a tornar-se um ludibrio.
Ainda que precise retomar velhos pensamentos.
Não sei o quanto de mim está aqui aprisionado.

Molho o corpo nas águas mornas do chuveiro
Numa pergunta líquida: onde posso mergulhar?
Gosto da vida e de suas etapas descontroladas
Gosto de ser eu mesmo. Gosto de me amar.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

TEMPO DE SER

Se a dor de ir nos causa amargura
E devasta o interior de nosso estar
Ainda temos de acatar essa loucura:
O barco de Caronte a nos chamar.

Tendo da morte a certeza definida
Como deter essa tremenda crueldade?
Como fazer um poema à partida
Se a própria vida vai trazer saudade?

Basta ocultar-se na ilusão de ser imortal
Pois no tempo onde pomos pés na terra
Nada de crer na escuridão que ela encerra.

E ser no todo um indivíduo passional
Vivendo célere todo e qualquer instante
Sugando o néctar do prazer inebriante.

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 29 de agosto de 2011.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DESORDEIRO

Nunca diga de mim falta de ardência.
Nunca pergunte para mim o que não amo.
Saiba: o meu cantar tem excelência
No tudo verdadeiro que eu proclamo.

Nunca marque em mim as diferenças.
Nunca acentue um verso onde não rimo.
Saiba: por mais que eu não tenha crenças
Sou verdadeiro em tudo que exprimo.

Diga de mim o mais amplo movimento:
Paixão de poeta e amor constante
No espaço dos versos ontem e agora.

Diga de mim aquele louco sentimento:
No beijo, no coito e em ser bastante
Desordeiro da paixão que me devora.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

POEMA EM ÂNSIA

Verde oceano aos barcos abrindo alas às travessias
Minhas asas voejam sobre ti no sonho mais indomado
Ganhando espaço nas alfombras dos teus velhos dias
De onde em voo liberto nasce o verso do desesperado
Na pretensão de morrer no ar buscando vento seguro
A deslizar em belos seios de auroras e sóis fulgurantes
A fundir o corpo alado ao corpo da mulher onde juro
Viver eterno e pronto a cantar os poemas delirantes.
Verde oceano deixa o pássaro voejar na imensidade
Deixa o voo maduro doar o verso da sua inconstância
Até que o limiar da vida feche o ciclo da sua eternidade
E faça os humanos pensarem sobre a mais crua ressonância
Do lirismo da liberdade rubra na cor dessa perenidade
Que outra não é que a essência do poema posto em ânsia.


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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 11 de agosto de 2011.