segunda-feira, 24 de outubro de 2011

TEMPO MARCADO

Quando a gente se achar por essas ruas do mundo
O que irá rolar?
Serão águas deslizando de cascatas gigantescas
Ou um pequeno rio correndo para o mar?

Quando meus olhos olharem dentro de teus olhos
O que irão falar?
Dirão talvez que teus piscares e olhares
Querem me decifrar?

Quando meus dedos enlaçarem os teus dedos
Como irão se apertar?
Esquentarão palma a palma as duas mãos
Para não acenar

Aquele adeus que se apresenta sempre perto
Querendo ser distante.
Duas mãos enlaçadas fazem um sonho irreal
Tornar-se delirante.

E assim a vida marca outra vida por esse caminho
De corpo e de olhos e de mãos.
Marcando horas e minutos esperados nesse tempo
Mesmo que sejam vãos.

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@ Copyright by Rafael Rocha - Recife, 23 de outubro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

DESATINO NOTURNO

Dance a vida nas ruas e nas mesas dos bares
Onde o meu novo poema possa renascer.
Dance vestida com as cores de todos os lugares
E traga novos e confusos lupanares
Mulheres para me enriquecer.

A música traga a paixão junto com a bebida
E que o sabor da cerveja no ritmo selvagem
Faça a mais feia mulher tornar-se embevecida
E linda e disposta a usufruir a vida
Insinuando mais coragem.

Assim a noite fica mais ampla e risonha
E mesmo bêbado de música e de algaravias
A paixão estimule a alma de quem sonha
E que no meu verso bêbado ela ponha
As luxúrias ainda que tardias.

E no sumir das trevas ao sol beligerante
Inimigo dos noturnos e quentes suores
Una em um leito os corpos recalcitrantes
No ir e vir que jamais serão bastantes
À reinação dos amores.

Na mesa do bar fique marcado o destino
Do homem e da mulher ainda a saber
No sol do outro dia quanto deu em desatino
O tudo que dançamos bêbados sob o hino
Da loucura de viver.

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@Coyright by Rafael Rocha - Recife, 21 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

PALAVRA

Dentro em mim a palavra canta livre e profana
O momento dos acasos. E nas coisas da memória
Vivem fracassos também feitos na história
Dos amores, risos e tristezas. Hoje tudo engana.

Nas incertezas mais cruéis desta lide insana
Ao ser poeta menor buscava minha glória.
Hoje no poente da vida a alma merencória
Descobre no mundo sua perdição tirana.

E lembranças guardadas já desaparecem
Levando os paradoxos cheios de ideias
Visando novos rumos aos que me esquecem

Nas névoas do futuro sem sonhos e epopeias
Nos fatos e nas fotos que ainda enriquecem
As livres palavras das minhas odisseias.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife 15 de outubro de 2011

DESCONHECIMENTO

Como vou conhecer melhor o abandono
Se a morte enche de terror as madrugadas?
Ainda que sejam coisas exageradas
Estão presentes. São inimigas de meu sono.

O garçom enche o copo e eu abro alas
Olhando ao derredor como se dono
Do prazer de viver espantasse o outono
Desta vida cortejada em falsas falas.

Ninguém olha e eu brindo em segredo
Ao delírio causador do grande medo
De partir para o inexorável nada.

E quando o bar fecha as portas eu lamento:
Pena não saibam os sóbrios o sentimento
Do bêbado a dormir sorrindo na calçada.

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@Copyright by Rafael Rocha - 15 de outubro de 2011

OUTUBRO 2011

Outubro! Tempo houve em que sonhos perturbavam
À vista de mim! À vista de todos! Tempo em que sonhava
E nem vi o tempo passando com tanta inexorabilidade
E os sonhos perturbadores tornando-se fantasmas.
Outubro! Tempo de minha espreita a sorrisos vários
De amigos, dos irmãos, pais, tios e tias e mais pessoas.
Meu tempo suprimia a saudade e vivia célere nas ruas.
Nem o vi transformando-se em um nevoeiro de passado.

A vida criou reinações nos quintais e nas ruas da cidade.
Rolou e pintou e bordou minha história para todo lado.
Não deu tempo para o corpo satisfazer a vontade feliz
De estar moço e são e vivo e vivendo longe da desembocadura.
A vida fez-se um rio depois dos quarenta anos e mostrou
Um caminho alongado cheio de pedras, cantares e enigmas.
E de repente agora estou vendo a aproximação do oceano
E a foz para onde as águas caminham precipitadas.

Outubro de 2011! Não mais sonhos perturbam o pensar
À vista de mim! Muitos deixaram de pensar e partiram
Dentro da inexorabilidade do tempo de cada um deles.
Tornaram-se mais do que fantasmas. Deixaram de ser.
Outubro de 2011! São tristes os sorrisos dos que aqui estão.
Os rios que sobraram e que ainda não viram sua foz.
E eu mesmo não mais posso suprimir as saudades do antes.
Hoje elas habitam em mim como fantasmas do passado.

Um dia (quiçá num outubro) estarei consumido e morto.
E ninguém imaginará como eu gritei versos à eternidade.
Nada imaginará como eu pude ser este teorema absurdo
Posto num espaço chamado Pernambuco capital Recife.
Mas seria interessante doar um fruto de outubro novo
A quem soube saber quem eu era e quem eu não era.
Ainda que saiba o quanto o poeta enganou ao homem
E o quanto o homem enganou a realidade do poeta.

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@Copyright by Rafael Rocha - 15 de outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

COISAS DE PENSAR

Se pensar preenche lacunas
Um homem se olha de viés
E destroça a casa dos sonhos
E pisa uma rosa aos seus pés.

Só pensar faz o passado vivo
Com a ideia de ser outra vez
No impossível laivo do futuro
Que o presente ilude mês a mês.

E dia e hora e minutos, gesto
Do que é já foi e sendo não será
Um somatório agregado ao sempre
Apenasmente não reviverá.

E pensar traz o iludível da memória
E a busca interrompida no jardim
De uma flor extinta e repelida
Pelo status do ouro mais afim.

Para todo final é sempre o mesmo
Recomeço de histórias passageiras
Que o pensar traz subitamente
Como a possibilitar suas quimeras.

E cria a indecisão da vida:
Entre dois amores há esperança?
Ninguém nota: dentro do corpo adulto
Baila sempre uma alma de criança.

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1984

RITMO DA ETERNIDADE

O sol da carne é transparente
Circundando uma teoria interrompida
No quadro-negro da vida.

A lua da carne é poeira inexistente
Circundando uma hipótese tramada
No papel das leis genéticas.

As estrelas da carne são ruas vazias
Circundando uma lição desaprendida
Nas evoluções das leis universais

Sol, lua e estrelas...
Nas leis de suas gravidades
Circundam meteoros e cometas
E os átomos dos que se foram
Abençoados pelos criadores de deuses
Homens e raças
Sangue e seiva
Espelhos elevados à eternidade.

Por omnia saecula:
Eis a verdade!

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1984

PARTIDA

Ao tempo do ato corpóreo do amor
Andarei como um mendigo
Solicitando a todo vão momento
A dádiva que teu corpo liquefez

Em água e ar e ventos frios
Obrigando-me a criar velhos paradoxos
Direi o sonho em velada forma maliciosa
Ao passeio triste do teu último sorriso.

Velho molusco adormecerei nas areias
Das praias mais ermas do planeta
À luz da lua mais amarela que triste
Ao entardecer mais noite que luz.

E serei irônico como um fâmulo
Ou palhaço sem circo:
Olhando a solidão do meu amor
Dentro de meus gestos de mendigo.

E como velho credor do iniludível
Sobre o fio esticado da esperança:
Equilibrado sobre o ato desse amor
Abrirei meus braços. Partirei!

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@ Copyright Rafael Rocha Neto – 1986

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MILÊNIO

Séculos defronte
À fome em dor
Homens gritam
Sem esperança

Crianças a mil
Desentendidas
Sonham espaços
De luz e amor

Nas ruas vivem
Desapegos
Cruzes negras

Nas meias-noites
Almas vazias
Clamam por luz.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

A UMA ADOLESCENTE (1985)

Sua alma na espera dos acontecimentos
Foge da humildade derramada de mulher
E agarra urgentemente o desejo carne
Que além de desejo é algo impalpável.

E pergunta se eu sou um poeta tímido
Ou noturno ou de alguma base futurâmica.
E faz isso com um sorriso malicioso
Ainda a não crer na verdade de um futuro.

Sim. Eu sou um poeta e ando disfarçado
Dentro de uma timidez elástica e pura.
Sim. Eu sou um poeta porque estou sozinho
E sereno e derramado na escuridão noturna.

Eu sei que sua alma é uma estrofe sibilante
A voar ao encontro de uma árvore fictícia
E a fazer do corpo um pedido imenso de carícias.
E a fazer do sonho o pão nosso de cada minuto.

Um dia...
Quando as suas mãos enrugadas
Tocarem a fímbria jovem de outro corpo
Ela quererá ser poeta e ver-se-á sem nada
Tamanho foi urgente seu desejo de carne
Como foi seu mundo.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

CARTA (1979)

Olha, amada:
Na verdade só queria mesmo fazer
Milhões de perguntas
Nunca parecidas, estranhas sim
Sentindo o delírio
Da descoberta dos motivos.
Mas esta carta (será mesmo?)
Vai voando aos teus portões
Buscando a descoberta
Dos melindres, dos erros
Das coisas diferentes
Que o poeta possa ter feito.
Agora
Limito-me a dizer:
Eu vou indo como sempre
Sério e desconfiado e simples
Tentando saber o que
Faz a demora da resposta.
Tantos dias: Dez? Onze?
Conta perdida
Na minha máquina de cálculo.
Só peço um pequeno toque
Algumas linhas curtas
Uma resposta
Pois se me demoro
Não é por prazer
Quiçá uma imperfeição
Tudo como aquilo
Que torna o tempo longo
E a vida curta
Paralítica
Dentro dos corações.
A carta (será mesmo?)
Só quer perguntar:
O que aconteceu?
Estranho, como creio
(espero ser engano)
Houve uma partida
E não sei em que ninho
Tua ave foi pousar
E mais que tudo
Eu escrevi rápido
Falei coisas minhas
E vivi depressa.
Pena que a resposta
Não tenha vindo
Descobrir a última invenção
Do meu sorriso.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

JAZIGO

Aqui ele jaz! O corpo morreu! Nada mais deve
Na partida recordar o quanto somos mortais.
Aqui ele jaz! O momento passou! Tudo é breve.
De instante a instante o homem é um ser fugaz.

No poema mais simplório que na tumba escreve:
Aqui jaz um alguém. Ele foi e nunca será mais.
Chore por ele, amigo, pra deixar a saudade leve.
Esse corpo, enfim, conseguiu encontrar a paz.

Não diga adeus. Isso vai trazer mais amargura
Ele partiu e nada irá fazer escutar a tua voz.
Seja ela um som cordiano repleto de ternura.

E não lamente o jazer do corpo nessa terra fria.
E não prometa a ninguém: Ele voltará depois!
Promessas vãs assim só aumentam a agonia.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 7 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A INVENÇÃO DO HOMEM

O homem inventou deus no meio da rua
E pinçou leis, códigos e mandamentos
Para dominar a terra, os planetas e a lua
E tudo aquilo que produz os movimentos.

E a invenção cresceu em alto e em largura
E o homem viu-se louco em mil momentos
Criou vários assessores para tal loucura
Visando viver no fio dos encantamentos.

E vieram os papas, padres, bispos e pastores
E acabaram com a ideia assim tão bem escrita
Resolvendo ficar ricos com as preces e favores.

E o homem agora é o instrumento da desdita:
O deus criado amaldiçoa os seus louvores
Enriquecendo igrejas com sua ilusão maldita.

TESTES

O amor faz amor e rima com dor
E flor e amargor e ardor e é cantor
E tem um sabor de se eu me for
Serei um penhor ao teu dissabor.

Dor é amargor e também é sabor
De amor já perdido todo o ardor
A fazer o pintor trocar sua cor
No clamor que por ele gritou.

E a fazer o poeta poetar sua dor
Por um caminho onde continuou
O verso maldito que por cá passou

No corpo macio que ele abraçou
E onde se fez e por onde dançou
A última ninfa com que sonhou.

RECLAMAÇÃO

Já de um tempo que a história me arrasta
Na busca da verdade e no anseio e nem sei
Se existe humanidade nessa terra vasta
Atacada pelo homem desobediente à lei.

Minha vida reclama dessa árida madrasta
Benzendo a raça humana como líder da grei
E sentir essa maldição da poderosa casta
Superior a tudo aquilo que eu imaginei.

Merda de sonho! Onde o ponho nem sei mais
Esse assaz humano pensar ladrão e assassino
A fazer de seus dotes esperança tão fugaz.

Merda de escrever este soneto em desatino
Sentindo um choro longo atrapalhar a paz
Do caminho a restar no badalar de um sino.

DOS HOMENS SIMPLÓRIOS

Palavras há perdidas e loucas para ganharem vida
Homens há onde tais vozes vivem e se permitem
Encontrar um porto ou alguma guarida
Onde possam dizer o quanto vivem
Declamando as sílabas das inverdades.

Palavras ainda voam e os homens fazem-se cegos
Ajoelham-se em altares como ensandecidos
Elevam orações às miragens dos seus egos
Não se imaginam homens perdidos
Adorando tantos símbolos e deidades.

Rastejam os corpos buscando algo igual à luz
Esquecem seus contraditórios sentimentos
Nos olhares hipnotizados algo mais traduz
Em seus mais simplórios pensamentos
A ignorância e o mito de um homem na cruz.

Palavras há voando em cores de todos os matizes
E mulheres e homens mergulham nos precipícios
Das mentiras ditas e escritas e feitas cicatrizes
Nos seus equinócios e nos seus solstícios
Onde o medo inflama a busca pelos paraísos.

Rastejam as dores humanas em todas as direções
E a ópera popular supera a realidade dos fatos
Nem vêem morta a bela Inês do poeta Camões.
Nem vêem a ilusão e o acaso vindo desses atos.
E deixam-se assaltar pelos bandidos das religiões.

A VOZ DO HOMEM NO CAMINHO

Meu caminho foi desenhado como um rio de pedras
Onde águas deslizam por sobre areias subterrâneas.
Venho caminhando nas margens escondidas dessas águas
A buscar aquilo que o mundo deve a todos os poetas.
Se o ritmo trouxe minha memória até aqui tão perto
Pretendo receber o que me é devido
Antes de o rio subterrâneo despencar no mar de algum deserto.

Aos meus lábios trago vozes extraordinariamente metafóricas.
Ainda que meus ouvidos não sejam grande coisa no mundo
Venho caminhando nessas metáforas desde saber-me gente
A tentar desenhar o que tantos humanos jamais viram.
Se as tintas de minhas pinturas são tão rupestres aos olhares
Ainda assim quero receber o que me devem
Antes que as metáforas causem danos ao verso solto nos ares.

Não sei quem ou o quê me trouxe até este espaço vazio e oco
Nem sequer resolveram perguntar se eu tinha tento em vir.
Vim de um homem e de uma mulher que se amaram um dia
E também buscaram fazer no mundo uma reinação de sonhos.
Se a verdade desse amor me deu carne e osso e olhos e vida
Agora é que desejo receber essa dívida
Antes de a perdição criar uma estrada sem cor e sem saída.

Quero um passaporte novo para a ida sem precisar da volta.
Abram a fronteira para meu poema passar sem percalço algum.
Eu quis tanta coisa para mim e ganhei tão poucas glórias.
E dessas coisas poucas eu sou mais o máximo que o mínimo.
Se nesse assombro ao ler-me tantos olhos em mim pousam
Por tal fato desejo receber com juros o que me devem
Antes de os assombros tornarem-se coisas que não ousam.

Dêem-me licença para voar dentro de minha força!
Dêem-me licença para ser mais livre que tantos!
Não deixarei que forças fantasiosas molestem meu tempo.
Jamais serei fustigado por mentes imbecis e escravocratas.
Se se escandalizarem com esse poder de minha liberdade
Matem-me! Mas ainda morto irei atravessar toda a vida
Dono de meu destino. Dono de minha mais inteira verdade.

domingo, 18 de setembro de 2011

LOUCA OBSESSÃO

Pensando no teu corpo eu canto um velho fado
Levo o meu sangue a escorrer a teu lado
Invisível e esperando ameigar a paixão.
A saudade obriga a carne a elevar um brado
Ainda que me chamem de velho safado
Pretendo degustar os sabores de tua amplidão.

Mulher a habitar meus sonhos mais inteiros
Suaves espaços de suor, de pelos e de cheiros
Estás viva nos meus versos em louca obsessão.
Mulher da flor cativa odorosa aos canteiros
Dos seios, das axilas, das coxas e ligeiros
Desejos de sexo insano a criar louco tesão.

Pensando em tua boca carnuda eu derramo
A teu anseio maluco de querer saber se eu amo
Ou se apenas estou a plantar uma ilusão.
Mulher a fazer delirar tudo que eu chamo.
Dá-me o bramido retumbante que reclamo:
- Vinde a mim saciar essa fome de paixão!

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

REPULSÃO

Tenho repulsão às vozes dos poetas incoerentes
Orando desvairados ao pé de cruzes e de imagens
No mundo e neste agora eles vivem tão-somente
Às fantasias de cristos, espíritos santos e miragens.
Não buscam ver a realidade milenar do mundo
E cantam nas entrelinhas as odes mais sacrossantas
Imenso é o medo de morrer e mergulhar no fundo
Do ódio do deus que rege seus versos de pilantras.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

AINDA

Ainda que tarde eu acorde o mundo espera.
Ainda que eu não saiba aonde me leva a vida.
Ainda que as traças da morte vivam à espreita
Não sei o quanto do acordar virá de mim.

Ainda que o sol bata na janela e mostre a luz.
Ainda que o calor da manhã queira despertar-me.
Ainda que a preguiça domine os átomos corporais
Não sei quanto o viver de mim é assinalado.

Os chinelos esperam meus pés ao pé do leito
Numa pergunta muda: aonde hoje vais me levar?
Gosto de estradas planas e de terras molhadas
Para proteger dedos e artelhos no teu caminhar.

Ainda que o dia esteja à espera do meu corpo.
Ainda que a pele respire o mais intenso ar.
Ainda que a solidão esteja cruel, viva e presente.
Os versos não pretendem nada mais do que voar.

Ainda que o tempo traga frêmitos equivocados.
Ainda que o amor dê-se a tornar-se um ludibrio.
Ainda que precise retomar velhos pensamentos.
Não sei o quanto de mim está aqui aprisionado.

Molho o corpo nas águas mornas do chuveiro
Numa pergunta líquida: onde posso mergulhar?
Gosto da vida e de suas etapas descontroladas
Gosto de ser eu mesmo. Gosto de me amar.

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@Copyright by Rafael Rocha Neto - Recife, 17 de setembro de 2011

terça-feira, 30 de agosto de 2011

TEMPO DE SER

Se a dor de ir nos causa amargura
E devasta o interior de nosso estar
Ainda temos de acatar essa loucura:
O barco de Caronte a nos chamar.

Tendo da morte a certeza definida
Como deter essa tremenda crueldade?
Como fazer um poema à partida
Se a própria vida vai trazer saudade?

Basta ocultar-se na ilusão de ser imortal
Pois no tempo onde pomos pés na terra
Nada de crer na escuridão que ela encerra.

E ser no todo um indivíduo passional
Vivendo célere todo e qualquer instante
Sugando o néctar do prazer inebriante.

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 29 de agosto de 2011.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DESORDEIRO

Nunca diga de mim falta de ardência.
Nunca pergunte para mim o que não amo.
Saiba: o meu cantar tem excelência
No tudo verdadeiro que eu proclamo.

Nunca marque em mim as diferenças.
Nunca acentue um verso onde não rimo.
Saiba: por mais que eu não tenha crenças
Sou verdadeiro em tudo que exprimo.

Diga de mim o mais amplo movimento:
Paixão de poeta e amor constante
No espaço dos versos ontem e agora.

Diga de mim aquele louco sentimento:
No beijo, no coito e em ser bastante
Desordeiro da paixão que me devora.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

POEMA EM ÂNSIA

Verde oceano aos barcos abrindo alas às travessias
Minhas asas voejam sobre ti no sonho mais indomado
Ganhando espaço nas alfombras dos teus velhos dias
De onde em voo liberto nasce o verso do desesperado
Na pretensão de morrer no ar buscando vento seguro
A deslizar em belos seios de auroras e sóis fulgurantes
A fundir o corpo alado ao corpo da mulher onde juro
Viver eterno e pronto a cantar os poemas delirantes.
Verde oceano deixa o pássaro voejar na imensidade
Deixa o voo maduro doar o verso da sua inconstância
Até que o limiar da vida feche o ciclo da sua eternidade
E faça os humanos pensarem sobre a mais crua ressonância
Do lirismo da liberdade rubra na cor dessa perenidade
Que outra não é que a essência do poema posto em ânsia.


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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 11 de agosto de 2011.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

CASUALIDADE

Ao falarmos de amor e de solidão
O tempo fica assim de tão pequeno
E a vida faz de conta ser canção
A voejar sob algum vento ameno.

Na verdade é melhor falar paixão
No corpo, nos lençóis e nas entranhas.
Bom sentir o germinar dessa ilusão
No casual das almas mais estranhas.

Continua a vida! Essa é a natureza
Mesma de saber o curtir a beleza
Sem comprometer verão e inverno.

Pois no outono do viver a primavera
É a loucura do sentir nova quimera
E criar um tempo chamado de eterno.

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 27 de julho de 2011.

DIVAGAÇÃO

Nuvem sombria na busca de um norte
O poeta divaga sobre o mundo
Na busca de entender a sua sorte
Filosofa o saber no mais profundo
Espaço aberto onde a deusa morte
Baila o lirismo no negrume do altar
Onde a vida solitária faz a corte
De tal rainha no seu sacrificar.

Nada responde a dor de quem o vê
Nada lhe diz o motivo dele ser
O hoje! O amanhã! E aquele onde!

Sendo nuvem a voejar em momento!
Sendo apenas um rápido pensamento!
Verme universal que não responde!

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 26 de julho de 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

UM DIA HAVERÁ

Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Irão cantar meus versos nos bares e nas ruas
E ouvidos surdos escutarão o pranto
Das solidões e dores tão cruéis e nuas

Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Meus versos serão cantados noite e dia
Nos botecos e nos piores antros
De onde os poetas buscavam calmaria

Haverá um dia! Não sei o onde e o quando.
Outro poeta lerá meus versos em seu viver
E a gritante emoção trar-lhe-á o pranto
Num soneto que ele pensou em escrever

Um dia haverá! Não sei o onde e o quando.
Não estarei mais aqui para saber.
Uma mulher dos meus versos faz um manto
E nele cria novo espaço para renascer.

Um dia haverá
Não sei o onde
Não sei o quando
Um dia haverá
Irão cantar...


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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 25 de julho de 2011.

domingo, 24 de julho de 2011

SOLIDÃO CRUEL

Pelo meu agora instante intranquilo
De onde os versos nem sabem aonde vão
Meu dormir parece mais o de um felino
Tentando espantar a solidão.

O quarto escuro se enche de miragens
A tentar falar comigo ideias vãs
Nesta idade para que novas paisagens
Se já não tenho mais almas irmãs?

Meu olhar vadeia o teto insondável
E põe a viajar por ele o coração
E o corpo seminu peleja insaciável
Contra a febre e contra a paixão.

Eis, aparecendo velhos pesadelos
Para encher de terror meus pensamentos
Abre-se o solo sobre meus joelhos
E meu grito rouco saltita seus tormentos.

Maldita! O que desejas de mim agora?
Já não basta ser fantasma pela noite?
Maldita solidão! E até mesmo na aurora?
Por que tenho de viver sob teu açoite?

As horas passam e o sono impedido
De ser sono abre alas à insônia crua.
E de repente o dia nasce entristecido
E a dor ataca o peito totalmente nua.

Ah, desde quando eu me sei a vida é essa:
Trevosa e cheia de pedras e de abismos
Até agora consentidos à minha pressa
De viver sempre a fugir de tantos sismos.

Assim, sigo a vida triste enquanto fico velho.
Coração solitário neste inquieto mundo.
Morro aos poucos à luz de meu espelho
E despeço-me assim, profundo, profundo...

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 12 de julho de 2011.

INCERTEZA

Se uma força faz o amor deixar de ser
O amor tão certo a dizer como governa
Minha alma e como pode ser eterna
A certeza deste amor nunca morrer.

Ela disse:
tal amor é ideia incerta
Não existe anseio assim de bem-querer
Mesmo pairando no teu sobreviver
Nunca deixarás uma porta aberta.

Não há amor assim! É ilusão pura!
Não há força assim! Não há ternura
Capaz de subjugar minhas tristezas.


E quando o beijo misturou as salivas
Sua ideia morreu nessas águas vivas
E nasceram nela novas incertezas.
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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 10 de julho de 2011.

DEZ POEMAS DE SOFRIMENTO OBTUSO

- I -
DOR ELEMENTAR

Dores chamam gritos roucos
Aos lábios de quem busca calar
Roucos gritos chamam cruéis dores
No poema final a torturar
Carne e ossos e pele e memória
Fica a densidade da história
Em qualquer lugar
Dores reclamam atrozes precipícios
À boca de quem busca falar
Sorrisos no meio de suplícios
Escrevendo os versos
Da dor elementar.

- II -
PUNHALADA

Dor e gritos
Entra n’alma o punhal
Nada com nada a dizer
Ou simplesmente escrever
Ou ser ave e voar
Entra n’alma o punhal
Ao se tentar reconhecer
A vida num só lugar
Isso é tão irreal!

- III -
BOLERO

O som do bolero
Perdura dentro da noite
E a nota musical
Final
Fecha o último botequim
A poesia canta
O princípio do fim.

- IV -
SER

O ser em mim dança
O ser em mim escreve
O ser em mim canta
O ser em fim pinta
Um caleidoscópio
Horizontes rubros
E se tenta poeta
Como se tenta ser deus.

- V -
LÁGRIMA

A lágrima desceu
Na solidão da noite
De olhos enrugados
E a face esforçou a pele
Do entendimento
Para absorver a dor

- Incompreensão de mim -
Resta um espaço vazio:
Buraco negro
Da ruindade
Desta terra
Desta vida

- VI -
INCERTEZA

Não sei o que fiz de mim
Em tanto tempo de caminhos
Através de ilusões
E através de corpos
E através de escuridões
Não sei o que fiz de mim
Em tanto tempo de destinos
Através destas razões
Aos outros tão bastantes
De versos inconstantes.

- VII -
PRAZER

Amor...
Assim não verás de mim
O beijar mais quente
Amada...
Assim não terás de mim
O beijo potente
Terás sonhos
Coisas irreais
Amor...
Faz com que aumente
O ser de mim
Em desejos reais
Dentro de ti.

- VIII -
SOFRIMENTO

Esta noite está perversa
Com peculiaridades
De madrasta ruim.
Quero e nada posso ter
De mim foge o grito
De sofredor
Dores a sair de dentro
Por destruição de amor.
Esta noite é perversa
Com peculiaridades
De dia tempestuoso.
Quero e não tenho nada
Habita em mim a dor
Eu sofro.

- IX -
PARTIDA

Tranco os versos na arca
Mais cerebral de minha vida
Vou partir...
Não vejo mais teu sorriso
Mulher mais querida
Eu te entristeci
Tranco os poemas na mala
Mais cerebral de mim
As ruas são grandes salas
De velórios aos mortos
Que me habitam
Vou partir...
Não vejo mais tua alegria
Eu errei em tudo enfim
As estradas são túmulos
Dos mortos
Que me habitam.

- X -
APEDREJAMENTO

Passam pensativos e calados
Ao meu lado os seres amados
E ordenam o apedrejamento
Do poeta.

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 9 de julho de 2011.

DE ANTES DAS PRISCAS ERAS

Do tempo de onde não havia estrelas
Nem sóis nem luas nem planetas
Tempo de onde gases de venenos
Agarravam bactérias ainda não florais
A ideia flutuava.

Do momento de onde não havia voz
Nem bocas nem tímpanos nem olhos
Momento de onde convergia silêncio
Viviam vírus dos futuros tão gerais.
A ideia começava.

Do instante de onde o tempo alçava voo
Nas alfombras sem luz e sem ecos
Instante de onde cruzaram-se poeiras térmicas
Em busca de alimentos estratosféricos
A ideia bailava.

Um dia...
Tudo envelheceu juntando faces enrugadas
Em fogo e relâmpagos e trovões e águas
Em neve e no caldeirão dos buracos negros
Explodiu a ideia.

Uma noite...
Colisão furtiva de milhões de térmicas
Deu-se à luz ao turbilhão dos sons de pedras
Águas e trovoadas e neve e frio e calor
Enrijeceu-se a ideia.

Sol. Estrelas. Cometas. Meteoros. Luas.
Logaritmos fugazes de linhas planejadas
A trouxeram.
E o verme começou a dançar nos vácuos
Uma ilha de fogo abriu alas às galáxias.

No tempo de onde vácuos ergueram-se
Como espaços maiores e infinitos
Tempo de onde gases vivificados
Ameigaram as bactérias de seres vivos
Nasceu o logos.

Do momento assim de onde veio um som
Uma música fina aos ouvidos surdos
Momento de onde convergiu o eco
Do vírus em trâmite de ligações termais
O logos começava.

Do instante de onde pariu-se o mundo
Nas violências e nos choques de ondas
Crescentes tempestades magnéticas
Na busca de habitats consistentes
O logos dançava.

Um dia...
Tudo anoiteceu em faces infantis e jovens
Em luz e em verde e em azul e em neon
Enormes bolas astrais iniciaram voos
O logo explodia.

Uma noite...
A colisão de água e fogo e terra e gás
Deu-se à luz poeira de estrelas
E algo assim de ar e calor e frio
Enrijeceu o logos.

Ardeu então nas profundezas coisas de asas
E pedras e céus desmoronados e quadrúpedes
E árvores e chuva e rios e mares e cavernas
E corpos errantes e a dor de nada se saber:
De onde o logos?

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@ Copyright by Rafael Rocha Neto – Recife, 30 de junho de 2011.