Clara e precisa na minha dor suprema
Angústia d’alma da qual o mundo ri:
Voa no espaço minha canção extrema
Da morte lenta andando a me seguir
Como se fosse meu corpo eterno guia
Culpas carnais a descontrolar aqui:
Ó sonho, ó mulher, ó bela fantasia!
Ainda há paixão para se me embutir.
Fazer na vida a cor em poema seco
Vai a ingrata revolver todo o esterco
Das ações loucas de minha mocidade
Sentindo o peso do adeus angustiante
Vejo o apagar da minha luz constante
Na carne quente de minha humanidade.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 14 de julho de 2010
Como se vindos do nada meus pensamentos voaram sobre o Recife nas noites de solidão e de farra. Trouxeram lembranças de velhos amigos, cheiros de mangues, luzes amarrotadas das avenidas, olhares de mulheres e crianças tristes, e o grito de guerra do meu Sport. O Recife se fez gente. Trouxe até mim as mulheres, amigos de bebedeira, poesia e tudo que pudesse apaziguar a mente que não se cansa de pensar. Assim nasceu a palavra vinda de minha rocha.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
POEMA DE OUTUBRO
Estou no meu ano sexagenário rumando ao escuro...
Eis as alegorias dos dias claros aqui.
Nas mãos dos meus amados e amadas.
Nos olhos de quem me vê
Sacralizado na loucura do mundo.
Bêbado e louco como devo ser.
Ouço as vozes dos amigos nos bares da vida
Rindo e cantando e espantando a dor invicta.
Nos meus pés de caminheiro
A cidade do Recife acorda
Dentro da noite onde tento pôr-me em pé.
Ergo-me para cantar a imensidade invernal
Onde a vida me trouxe e onde agora estaciono.
É meu aniversário!
Que bom que ainda sou!
Que bom que ainda vivo!
Meu nascer veio no mês decenal do calendário
E o pintor das madonas deu-me seu nome.
Nasci olhando o sol vermelho.
Nasci de alma e corpo estradeiros
Prontos a enfrentar os tormentos dos dias.
Levem-me agora amados e amadas de mim!
Levem-me para qualquer rincão de sonho!
Meu ano sexagenário está como o sol a se pôr.
As portas da cidade abrem-se para mim
E eu escrevo o sonho ou sonhos...
Na luz do cais do porto onde o marco é zero
Do inverno ao verão florescem vôos de gaivotas
E garças brancas olham-me benevolentes no rio.
Para além da divisa de meus amados e amadas
Os relógios marcam o tempo do fim.
Se eu me transfiguro em paisagem torno-me criança
De mãos dadas com quem me trouxe ao mundo.
No futuro outubro meu ser irmanar-se-á à poesia.
Sou um prodígio de tantos genes!
Sou um matiz de eternidade!
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 11 de julho de 2010.
Eis as alegorias dos dias claros aqui.
Nas mãos dos meus amados e amadas.
Nos olhos de quem me vê
Sacralizado na loucura do mundo.
Bêbado e louco como devo ser.
Ouço as vozes dos amigos nos bares da vida
Rindo e cantando e espantando a dor invicta.
Nos meus pés de caminheiro
A cidade do Recife acorda
Dentro da noite onde tento pôr-me em pé.
Ergo-me para cantar a imensidade invernal
Onde a vida me trouxe e onde agora estaciono.
É meu aniversário!
Que bom que ainda sou!
Que bom que ainda vivo!
Meu nascer veio no mês decenal do calendário
E o pintor das madonas deu-me seu nome.
Nasci olhando o sol vermelho.
Nasci de alma e corpo estradeiros
Prontos a enfrentar os tormentos dos dias.
Levem-me agora amados e amadas de mim!
Levem-me para qualquer rincão de sonho!
Meu ano sexagenário está como o sol a se pôr.
As portas da cidade abrem-se para mim
E eu escrevo o sonho ou sonhos...
Na luz do cais do porto onde o marco é zero
Do inverno ao verão florescem vôos de gaivotas
E garças brancas olham-me benevolentes no rio.
Para além da divisa de meus amados e amadas
Os relógios marcam o tempo do fim.
Se eu me transfiguro em paisagem torno-me criança
De mãos dadas com quem me trouxe ao mundo.
No futuro outubro meu ser irmanar-se-á à poesia.
Sou um prodígio de tantos genes!
Sou um matiz de eternidade!
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 11 de julho de 2010.
FÊMEA MUNDANA
A amada do meu tempo mundano está desnuda
Exercendo seu pendor feminil sobre meu corpo.
Perfume de pele envolve meu olfato.
Ela é soberana.
Diz: Eu te amo!
Como sendo abelha e eu sendo flor.
Ela ataca meus nervos puxando o fio de minha vida
Tal e qual a Vênus a prometer mil dádivas.
Serpente ela desliza por sobre meu corpo.
Ela é imperatriz.
Diz: Eu te quero!
Como sendo sede e eu sendo a água.
A amada de mim não busca ver meu coração.
Ela caminha nua sobre todos os meus poros.
Pela umidade dos beijos ela faz território.
Ela é rainha.
Diz: Eu amo assim!
Como sendo chuva e eu sendo terra.
Ela acelera meus nervos para a força da paixão.
E traz rezas de gênese e fim aos meus ouvidos.
Rouba do meu corpo sêmen e sangue.
Ela é mulher.
Diz: Eu sou tua!
Como sendo luz e eu a escuridão.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 11 de julho de 2010.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
VIDA MORTA
Nenhuma ternura para entrar na minha noite vagabunda.
Acendo meu cigarro e encho meu copo com cerveja ou rum.
Aprendo, ainda que tarde, como a vida está falida
E os homens íntegros contados nos dedos das duas mãos.
Nenhuma ternura a penetrar na noite vagabunda.
Os loucos, poetas sim, e eu, tentamos acreditar nas utopias
Tal antigos Quijotes a fantasiar grandes moinhos de vento.
Eu começo a odiar as noites transportadoras das doçuras.
Os homens maus bailam nas bandeiras das pátrias
E assassinam friamente as alegrias da vida esplêndida.
Nenhuma ternura para habitar na minha noite vagabunda.
Fumo os cigarros e sorvo com afinco meu rum e as cervejas.
Imagino, tal John Lennon, um mundo liberto das idéias
Preconcebidas dos homens paramentados e das igrejas
Nenhuma ternura para habitar a minha vagabunda noite.
Aos meus amigos falo de dentro de minha obscuridade:
Não maldigam minhas palavras antes do raiar do sol.
Não podem entrar nessa noite. O medo domina a vida.
Todas as retinas estão cegas para a travessia da luz.
Os homens maus tingem de vermelho as bandeiras das pátrias.
Os sábios, onde esconderam a verossimilhança do tempo?
Suas palavras não mais possuem centelhas do Nietzsche.
Habitam casas de ouro e prata com os homens da mídia
E escrevem filosofias baratas para comprar almas humildes.
Não temem nada com seus cofres enchendo-se de ouro.
Nenhuma ternura habita dentro de minha noite vagabunda.
Preciso de mais cervejas e de mais fumaças de cigarros.
Os cérebros dos humanos foram acorrentados com a dádiva
De paraísos fantásticos e de salvações através da morte.
As alegrias da vida mais esplêndida foram assassinadas.
Vida inverossímil.
Vida sem ternura.
Vida enrodilhada no medo.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 9 de julho de 2010.
Acendo meu cigarro e encho meu copo com cerveja ou rum.
Aprendo, ainda que tarde, como a vida está falida
E os homens íntegros contados nos dedos das duas mãos.
Nenhuma ternura a penetrar na noite vagabunda.
Os loucos, poetas sim, e eu, tentamos acreditar nas utopias
Tal antigos Quijotes a fantasiar grandes moinhos de vento.
Eu começo a odiar as noites transportadoras das doçuras.
Os homens maus bailam nas bandeiras das pátrias
E assassinam friamente as alegrias da vida esplêndida.
Nenhuma ternura para habitar na minha noite vagabunda.
Fumo os cigarros e sorvo com afinco meu rum e as cervejas.
Imagino, tal John Lennon, um mundo liberto das idéias
Preconcebidas dos homens paramentados e das igrejas
Nenhuma ternura para habitar a minha vagabunda noite.
Aos meus amigos falo de dentro de minha obscuridade:
Não maldigam minhas palavras antes do raiar do sol.
Não podem entrar nessa noite. O medo domina a vida.
Todas as retinas estão cegas para a travessia da luz.
Os homens maus tingem de vermelho as bandeiras das pátrias.
Os sábios, onde esconderam a verossimilhança do tempo?
Suas palavras não mais possuem centelhas do Nietzsche.
Habitam casas de ouro e prata com os homens da mídia
E escrevem filosofias baratas para comprar almas humildes.
Não temem nada com seus cofres enchendo-se de ouro.
Nenhuma ternura habita dentro de minha noite vagabunda.
Preciso de mais cervejas e de mais fumaças de cigarros.
Os cérebros dos humanos foram acorrentados com a dádiva
De paraísos fantásticos e de salvações através da morte.
As alegrias da vida mais esplêndida foram assassinadas.
Vida inverossímil.
Vida sem ternura.
Vida enrodilhada no medo.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 9 de julho de 2010.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
COLÓQUIOS
Sou aquele a iludir o reino das palavras no meu tédio.
De olhar os ponteiros do relógio no deslize vagaroso.
Trago em mim o pretexto de dizer versos amargos
E semear poentes e albores como sendo poderoso.
Estou preso aos selvagens espinhos de minha carne
Prenhe de anseios tal um pedinte de porta em porta.
E vôo como um pássaro: asas abertas em incógnitas
E canto quase sem querer minha natureza morta.
Minhas rugas mostram o tempo meio assim mutável
Onde passei anos e anos a semear palavras vãs.
Meu corpo adentra na corrosão do novo tempo
Na tentativa louca de alcançar carnes irmãs.
Sou o poeta a iludir o oceano e o navio da vida
Erodido pelo tempo e a olhar para todos os relógios.
Esfarela-se minha pedra em poeira nos caminhos
E não paro de fazer comigo estes estranhos colóquios.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 8 de julho de 2010.
De olhar os ponteiros do relógio no deslize vagaroso.
Trago em mim o pretexto de dizer versos amargos
E semear poentes e albores como sendo poderoso.
Estou preso aos selvagens espinhos de minha carne
Prenhe de anseios tal um pedinte de porta em porta.
E vôo como um pássaro: asas abertas em incógnitas
E canto quase sem querer minha natureza morta.
Minhas rugas mostram o tempo meio assim mutável
Onde passei anos e anos a semear palavras vãs.
Meu corpo adentra na corrosão do novo tempo
Na tentativa louca de alcançar carnes irmãs.
Sou o poeta a iludir o oceano e o navio da vida
Erodido pelo tempo e a olhar para todos os relógios.
Esfarela-se minha pedra em poeira nos caminhos
E não paro de fazer comigo estes estranhos colóquios.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 8 de julho de 2010.
domingo, 4 de julho de 2010
DESAMPARO
Lembro o dia em que galguei a montanha da vida
Tentando esculturar a paixão adormecida em mim.
Rostos e corpos desfaziam-se em plena poesia
E meu grito de raiva ecoava de tal modo maciço
Trazendo a dor de ser humano sem alegria
Eu estava sem guarida...
Meus ouvidos surdos escutaram vozes invisíveis
E adormeci nas ruas de meu exílio particular.
Mulheres e homens zombaram daquilo que eu era
E resolvi tornar mais surda minha vida.
Mas não derramei lágrimas em vão no mundo
Busquei renascer nas profundezas de mim.
Escrevi versos como quem parte para sempre
E ressuscitei meus anseios de criança travessa.
Nos braços da mulher amada fugi do exílio
E achei amigos nos quais nunca pensava muito.
Esculturei a paixão mais que embevecida
E consegui da alegria um sorriso fortuito.
Hoje ainda continuo exilado no país dos versos.
Mas ao menos tenho quem apare os meus gritos
Ainda que exilado mantenha o corpo vivo
E dores de amor permaneçam a voejar em mim.
Escrevo e crio palavras sempre definitivas
Eu ainda estou meio sem guarida....
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 4 de julho de 2010.
Tentando esculturar a paixão adormecida em mim.
Rostos e corpos desfaziam-se em plena poesia
E meu grito de raiva ecoava de tal modo maciço
Trazendo a dor de ser humano sem alegria
Eu estava sem guarida...
Meus ouvidos surdos escutaram vozes invisíveis
E adormeci nas ruas de meu exílio particular.
Mulheres e homens zombaram daquilo que eu era
E resolvi tornar mais surda minha vida.
Mas não derramei lágrimas em vão no mundo
Busquei renascer nas profundezas de mim.
Escrevi versos como quem parte para sempre
E ressuscitei meus anseios de criança travessa.
Nos braços da mulher amada fugi do exílio
E achei amigos nos quais nunca pensava muito.
Esculturei a paixão mais que embevecida
E consegui da alegria um sorriso fortuito.
Hoje ainda continuo exilado no país dos versos.
Mas ao menos tenho quem apare os meus gritos
Ainda que exilado mantenha o corpo vivo
E dores de amor permaneçam a voejar em mim.
Escrevo e crio palavras sempre definitivas
Eu ainda estou meio sem guarida....
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 4 de julho de 2010.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
SINAIS
Se algum deus por acaso aqui exista
Envie sinais para o nosso desalento.
Traga ações. Interaja à nossa vista.
Mostre-se real. Mostre-se atento.
Fé é ignorância por mais que persista
Insistir manter o invisível em confiança.
Como será acreditar numa etérea pista
Nunca mostrando onde seu fim alcança?
Se algum deus por vontade própria sua
Sair do armário e mostrar a força nua
Interagindo com toda humanidade
Péssima idéia é seguir um fixo rumo.
O homem crendo em deus eu cá presumo
É um ser perdido na imbecilidade.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 2 de julho de 2010.
Envie sinais para o nosso desalento.
Traga ações. Interaja à nossa vista.
Mostre-se real. Mostre-se atento.
Fé é ignorância por mais que persista
Insistir manter o invisível em confiança.
Como será acreditar numa etérea pista
Nunca mostrando onde seu fim alcança?
Se algum deus por vontade própria sua
Sair do armário e mostrar a força nua
Interagindo com toda humanidade
Péssima idéia é seguir um fixo rumo.
O homem crendo em deus eu cá presumo
É um ser perdido na imbecilidade.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 2 de julho de 2010.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
NECESSIDADE
Preciso de saber. Saber sentir o destino
Aceitar o escurecer do nada.
Escrever um verso frio; um hino
Na solidão da estrada.
Para a vida reforçarei o desatino
Da alma desamparada.
E no final do verso, assassino
A mente desvairada.
Preciso de sonhar. Preciso de você
Mulher minha delirante
Isso tudo antes de morrer
Vinde, corpo quente e palpitante
Corpo disposto a ser
Grandioso orgasmo do viver.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 30 de junho de 2010.
Aceitar o escurecer do nada.
Escrever um verso frio; um hino
Na solidão da estrada.
Para a vida reforçarei o desatino
Da alma desamparada.
E no final do verso, assassino
A mente desvairada.
Preciso de sonhar. Preciso de você
Mulher minha delirante
Isso tudo antes de morrer
Vinde, corpo quente e palpitante
Corpo disposto a ser
Grandioso orgasmo do viver.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 30 de junho de 2010.
EPITÁFIOS
Da vida trago braços de espumas salgadas
Do mar e dos eflúvios doces dos rios
De meus sonhos de infância colhi pedras
Nada ficou de meus anseios de homem
A vida permanece úmida e fria
Sob os raios desse estranho sol permanente.
Na minha estrada colhi poeira
Marquei com meus pés a lama
Tantos pisaram comigo os caminhos
Nem mais lembro os rostos e as bocas
Sobraram no finito da caminhada
Nas profundezas de suas dimensões.
Minhas areias humanas fazem praias
E ancoradouro para os atuais amigos
E margens de grandes rios às mulheres
Essas loucas a me trazer vida noturna
Nos lençóis e nos quentes travesseiros
Umidificadas pelas gotas de suas chuvas.
O tempo está a erguer estátuas de pedra
Marcando momentos das elegias finais
Há um ancoradouro em horizonte novo
Vazio de barcos e ainda sem albor de sol.
O tempo está a causar medo a minha carne.
O tempo está a escrever tantos epitáfios.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
Do mar e dos eflúvios doces dos rios
De meus sonhos de infância colhi pedras
Nada ficou de meus anseios de homem
A vida permanece úmida e fria
Sob os raios desse estranho sol permanente.
Na minha estrada colhi poeira
Marquei com meus pés a lama
Tantos pisaram comigo os caminhos
Nem mais lembro os rostos e as bocas
Sobraram no finito da caminhada
Nas profundezas de suas dimensões.
Minhas areias humanas fazem praias
E ancoradouro para os atuais amigos
E margens de grandes rios às mulheres
Essas loucas a me trazer vida noturna
Nos lençóis e nos quentes travesseiros
Umidificadas pelas gotas de suas chuvas.
O tempo está a erguer estátuas de pedra
Marcando momentos das elegias finais
Há um ancoradouro em horizonte novo
Vazio de barcos e ainda sem albor de sol.
O tempo está a causar medo a minha carne.
O tempo está a escrever tantos epitáfios.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
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medos
terça-feira, 29 de junho de 2010
TROVÕES
O que se tem de fazer? O homem pensava. A noite do lado de fora do casebre estava esquisita. Lampejos desvairados de dor nas têmporas. A chuva fazia a lama entrar pelas frestas de madeira da casa. A barriga revirava com vários roucos de fome. A luz do candeeiro bruxuleava.
No canto a mulher tinha elevado a cama sobre vários tijolos para não ser alcançada pela lama. E dormia abraçada com a menina. Do outro lado, o menino enrodilhado entre as pernas da mãe. Mexeu-se. Puxou um lençol rasgado por cima. O corpinho de doze anos estremeceu vestido com a camisa do time de futebol do coração.
O que se tem de fazer? O homem olha ao redor. Coça a barba hirta. A fome não o faz pensar bem. Enfia a mão no bolso da camisa e de lá retira uma garrafa de cachaça. Bebe um gole. Fica mais quente. A dor nas têmporas aumenta e ele tem vontade de gritar. Morde os lábios até o sangue escorrer.
E por que é mais fácil isso? Ter uma arma e ter bala de chumbo no cilindro? Por que é tão fácil? Mais fácil ter isso do que um pão ou um pedaço de carne. Levanta-se. Vai até o fogão enferrujado. Uma panela. Abre. Só um resto de sopa de legumes. Enche uma caneca. Bebe. Que merda!
O que se tem de fazer? Um relâmpago traz um estrondo do trovão. A chuva aumenta. Ele pensa em dormir, mas a dor nas têmporas anda a abater seu sono. Olha a mulher na cama. Que fizemos? O que fiz? A cabeça da mulher utiliza uma bíblia como travesseiro. Ele fica irritado. Ah, que Deus de merda é esse que nos faz isso?
A dor nas têmporas aumenta. Ele começa a perder o entendimento de si. Olha para os lados. A luz bruxuleante do candeeiro faz o casebre parecer uma gruta de abrigar animais. A mulher gira o corpo e faz a bíblia cair na lama no chão. Que vá à merda! Quase que ele grita.
Faz outra dose de cachaça deslizar pela garganta. O que se tem de fazer? Sente que tem de fazer o óbvio. Nada existe para ir adiante. Nenhum caminho se abre com sol. Nenhum futuro. É tudo escuro e chuvoso. É tudo fome. É tudo sem constância. Do bolso da calça tira um pacote e põe na mesa.
O que se tem de fazer? Tudo que for preciso para sair deste espaço de merda, diz para si mesmo. Um revolver calibre 38 agora nas mãos. O cilindro com as seis balas. É tão fácil ter uma arma e é tão difícil ter um pão!... Vai até a cama. A mulher recebe o tiro nas têmporas. Depois mais dois tiros no menino e na menina.
Quando o relâmpago traz o poderoso trovão o tiro que ele dá em si mesmo é abafado pelo clamor da tempestade.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
No canto a mulher tinha elevado a cama sobre vários tijolos para não ser alcançada pela lama. E dormia abraçada com a menina. Do outro lado, o menino enrodilhado entre as pernas da mãe. Mexeu-se. Puxou um lençol rasgado por cima. O corpinho de doze anos estremeceu vestido com a camisa do time de futebol do coração.
O que se tem de fazer? O homem olha ao redor. Coça a barba hirta. A fome não o faz pensar bem. Enfia a mão no bolso da camisa e de lá retira uma garrafa de cachaça. Bebe um gole. Fica mais quente. A dor nas têmporas aumenta e ele tem vontade de gritar. Morde os lábios até o sangue escorrer.
E por que é mais fácil isso? Ter uma arma e ter bala de chumbo no cilindro? Por que é tão fácil? Mais fácil ter isso do que um pão ou um pedaço de carne. Levanta-se. Vai até o fogão enferrujado. Uma panela. Abre. Só um resto de sopa de legumes. Enche uma caneca. Bebe. Que merda!
O que se tem de fazer? Um relâmpago traz um estrondo do trovão. A chuva aumenta. Ele pensa em dormir, mas a dor nas têmporas anda a abater seu sono. Olha a mulher na cama. Que fizemos? O que fiz? A cabeça da mulher utiliza uma bíblia como travesseiro. Ele fica irritado. Ah, que Deus de merda é esse que nos faz isso?
A dor nas têmporas aumenta. Ele começa a perder o entendimento de si. Olha para os lados. A luz bruxuleante do candeeiro faz o casebre parecer uma gruta de abrigar animais. A mulher gira o corpo e faz a bíblia cair na lama no chão. Que vá à merda! Quase que ele grita.
Faz outra dose de cachaça deslizar pela garganta. O que se tem de fazer? Sente que tem de fazer o óbvio. Nada existe para ir adiante. Nenhum caminho se abre com sol. Nenhum futuro. É tudo escuro e chuvoso. É tudo fome. É tudo sem constância. Do bolso da calça tira um pacote e põe na mesa.
O que se tem de fazer? Tudo que for preciso para sair deste espaço de merda, diz para si mesmo. Um revolver calibre 38 agora nas mãos. O cilindro com as seis balas. É tão fácil ter uma arma e é tão difícil ter um pão!... Vai até a cama. A mulher recebe o tiro nas têmporas. Depois mais dois tiros no menino e na menina.
Quando o relâmpago traz o poderoso trovão o tiro que ele dá em si mesmo é abafado pelo clamor da tempestade.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
EPÍSTOLA AO MUNDO
Mais presente na terra do que o sonho mais irreal
Entre a razão e a paixão desses lugares faço parte
Das paisagens de cinza e luz observadas em todo dia
Nas barafundas das loucuras e na sede desumana
Deslizando na carne e entre pálpebras sonolentas
Ando...
Não sou poeta de cantar paixões românticas imortais
Mas a razão de mim não governa minha vida.
Se a minha poesia cansa os olhos de quem lê o livro
O leitor vá beber sua cicuta socrática apropriada
Para satisfazer sua ignorância ou ofuscar sua mente débil.
Ando...
Não pretendo agarrar-me a anjos nem a cruzes de cristos
A minha poesia não é adorável e não pretende sê-la.
Um Maiakovski de mim ou um produto vivo da terra
Assim prefiro. Assim serei. Assim pretende minha razão.
No obscuro clamor não ponho caramelos na canção.
Ando...
Estou caminhando na fase de uma luta de guerrilhas
Com armas traiçoeiras escondidas entre as vestes
Tenho uma pretensão de matar leitores e críticos
E de mandar à merda os filósofos teológicos
E fazer no poema o parto do assassino serial.
Ando...
Vejo a vida no passear flertando com minha carne magra
Belas fêmeas abrindo as pernas na tentação das sílfides
Homens hipócritas elogiando minhas atuais palavras
Sem nem saber a verdade do que falo e do que vivo
Cães imbecis a uivar suas coisas vãs ao acaso.
Ando...
Tal a palavra do Iessiênin dita quase sem a voz sonhar:
“Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento”.
Ando...
Vomito meus versos escritos pelos meus demônios
Não escrevo para harmonizar almas desvairadas
Minha estrada é longa e vazia e não vejo o horizonte
Tenho a mim como uma planta silvestre espinhenta
A solidão faz parte do último verso da estrada.
Ando...
-------
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
Entre a razão e a paixão desses lugares faço parte
Das paisagens de cinza e luz observadas em todo dia
Nas barafundas das loucuras e na sede desumana
Deslizando na carne e entre pálpebras sonolentas
Ando...
Não sou poeta de cantar paixões românticas imortais
Mas a razão de mim não governa minha vida.
Se a minha poesia cansa os olhos de quem lê o livro
O leitor vá beber sua cicuta socrática apropriada
Para satisfazer sua ignorância ou ofuscar sua mente débil.
Ando...
Não pretendo agarrar-me a anjos nem a cruzes de cristos
A minha poesia não é adorável e não pretende sê-la.
Um Maiakovski de mim ou um produto vivo da terra
Assim prefiro. Assim serei. Assim pretende minha razão.
No obscuro clamor não ponho caramelos na canção.
Ando...
Estou caminhando na fase de uma luta de guerrilhas
Com armas traiçoeiras escondidas entre as vestes
Tenho uma pretensão de matar leitores e críticos
E de mandar à merda os filósofos teológicos
E fazer no poema o parto do assassino serial.
Ando...
Vejo a vida no passear flertando com minha carne magra
Belas fêmeas abrindo as pernas na tentação das sílfides
Homens hipócritas elogiando minhas atuais palavras
Sem nem saber a verdade do que falo e do que vivo
Cães imbecis a uivar suas coisas vãs ao acaso.
Ando...
Tal a palavra do Iessiênin dita quase sem a voz sonhar:
“Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento”.
Ando...
Vomito meus versos escritos pelos meus demônios
Não escrevo para harmonizar almas desvairadas
Minha estrada é longa e vazia e não vejo o horizonte
Tenho a mim como uma planta silvestre espinhenta
A solidão faz parte do último verso da estrada.
Ando...
-------
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 29 de junho de 2010.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
IMORTALIDADE
Antes do abraço pesado da mãe-terra.
Antes da invasão dos vermes da argila.
A glória de meus versos eu reparto e verto
Para o conhecer imortal da alma viva.
Não, não fiques triste. Aceite a verdade:
Um dia esta minha face nunca mais verás.
Só na amplidão do papel far-se-á alarde
Do imortal que fico no negro dos sinais.
Da cabeça onde tirei os pensamentos
Só irão restar ossos finos e orifícios.
Mortos estarão os meus tormentos.
Vivos ficarão meus sonhos fictícios.
Por isso, venha a mim agora. Bebamos
A cerveja e fumemos o cigarro, necessários.
Sintamos as mulheres e juntos façamos
O ritual maciço aos novos itinerários.
E por que não? Tenhamos alguma serventia.
A vida é um sopro. A morte é eternidade.
O tempo de viver é só um curto dia.
O tempo de partir não vai marcar idade.
Bebamos! A vida é bela enquanto é bebida!
Chorar e rir! Beijar e ganhar abraços.
Escrever o poema é imortalizar a vida.
Fazer um verso é gerar um novo espaço.
Festeje a morte com a vida nesta rima
Pois ao partires nada irá restar daqui.
Uma outra gente poderá ser-te prima.
Jovens e velhos ler-te-ão e vão sorrir.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 24 de junho de 2010.
Antes da invasão dos vermes da argila.
A glória de meus versos eu reparto e verto
Para o conhecer imortal da alma viva.
Não, não fiques triste. Aceite a verdade:
Um dia esta minha face nunca mais verás.
Só na amplidão do papel far-se-á alarde
Do imortal que fico no negro dos sinais.
Da cabeça onde tirei os pensamentos
Só irão restar ossos finos e orifícios.
Mortos estarão os meus tormentos.
Vivos ficarão meus sonhos fictícios.
Por isso, venha a mim agora. Bebamos
A cerveja e fumemos o cigarro, necessários.
Sintamos as mulheres e juntos façamos
O ritual maciço aos novos itinerários.
E por que não? Tenhamos alguma serventia.
A vida é um sopro. A morte é eternidade.
O tempo de viver é só um curto dia.
O tempo de partir não vai marcar idade.
Bebamos! A vida é bela enquanto é bebida!
Chorar e rir! Beijar e ganhar abraços.
Escrever o poema é imortalizar a vida.
Fazer um verso é gerar um novo espaço.
Festeje a morte com a vida nesta rima
Pois ao partires nada irá restar daqui.
Uma outra gente poderá ser-te prima.
Jovens e velhos ler-te-ão e vão sorrir.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 24 de junho de 2010.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
TEMPOS IDOS
Deixando em sal as minhas águas da península
Tristeza do ter sido mundo em tempo exilado.
Como dando sabor às lagrimas do desterro
O meu outrora da vida ter-me desajustado.
A dor fluiu! E os dias ficaram inúteis e vazios.
Tal presença de glória tanto eu ousei sonhar
Cabelos brancos a emoldurar o belo crânio
A caminho de Caronte essas geleiras vão passar.
Lembro a voz na mesa: Eu não te reconheço!
Preso o pranto enregelou-se em pedra a dor
Marcante dor a invadir a espécie de mim.
Lembro a voz sorrindo a desprezar o amor.
Paixão interrompida. Dá-se e tira. Tudo a se acabar.
Mundo que expira. Vai-se para outros mares a flor.
Tal os versos mais infantes a sonhar desditas.
“Fonte não me leves, não me leves para o mar”.
Eis no tempo a fonte fria. Sorriso zombador.
A matar o esplendor maior daquela triste lira.
Antes de ser jogado ao mar o corpo frágil
Salvaram-no as areias e o perfume da ilha.
Braços amplos acolheram o poeta incendiado.
Deram-se mãos à paixão na jovem pressa da vida.
O amor fluiu venoso em novo corpo recriado
E renasceu na glória da ilusão imperecida.
Cabelos brancos emolduram o belo crânio.
Tais espessas geleiras no caminho de Caronte.
E a voz repete na vida: Não mais te conheço!
Não sei quem és! Nem imagino de qual lugar de onde...
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
Tristeza do ter sido mundo em tempo exilado.
Como dando sabor às lagrimas do desterro
O meu outrora da vida ter-me desajustado.
A dor fluiu! E os dias ficaram inúteis e vazios.
Tal presença de glória tanto eu ousei sonhar
Cabelos brancos a emoldurar o belo crânio
A caminho de Caronte essas geleiras vão passar.
Lembro a voz na mesa: Eu não te reconheço!
Preso o pranto enregelou-se em pedra a dor
Marcante dor a invadir a espécie de mim.
Lembro a voz sorrindo a desprezar o amor.
Paixão interrompida. Dá-se e tira. Tudo a se acabar.
Mundo que expira. Vai-se para outros mares a flor.
Tal os versos mais infantes a sonhar desditas.
“Fonte não me leves, não me leves para o mar”.
Eis no tempo a fonte fria. Sorriso zombador.
A matar o esplendor maior daquela triste lira.
Antes de ser jogado ao mar o corpo frágil
Salvaram-no as areias e o perfume da ilha.
Braços amplos acolheram o poeta incendiado.
Deram-se mãos à paixão na jovem pressa da vida.
O amor fluiu venoso em novo corpo recriado
E renasceu na glória da ilusão imperecida.
Cabelos brancos emolduram o belo crânio.
Tais espessas geleiras no caminho de Caronte.
E a voz repete na vida: Não mais te conheço!
Não sei quem és! Nem imagino de qual lugar de onde...
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
ARRANCAR O RANCOR
Arrancar o rancor
Antes
Tenho que fazê-lo vida!
Aglutinar
Anseios assassinos
Matar...
Ferir...
Esganar...
Versos a tentar nascer.
Amaciar o rancor
Antes
Tenho que fazê-lo morte!
Cometer
Ações maledicentes
Rir...
Chorar...
Zombar...
Versos a tentar morrer.
Desprezar o rancor
Antes
Tenho que fazê-lo nada!
Desatinar
Canções de amor à vida
Amar...
Beijar...
Sonhar...
Versos de beijar mil bocas.
É hora de exilar o rancor!
Uma mesa de bar aguarda meu corpo!
Um gole gelado de cerveja
Amacia...
Aglutina...
Desatina...
Sai rancor!
Ficam versos e saudades
A voar na noite.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
Antes
Tenho que fazê-lo vida!
Aglutinar
Anseios assassinos
Matar...
Ferir...
Esganar...
Versos a tentar nascer.
Amaciar o rancor
Antes
Tenho que fazê-lo morte!
Cometer
Ações maledicentes
Rir...
Chorar...
Zombar...
Versos a tentar morrer.
Desprezar o rancor
Antes
Tenho que fazê-lo nada!
Desatinar
Canções de amor à vida
Amar...
Beijar...
Sonhar...
Versos de beijar mil bocas.
É hora de exilar o rancor!
Uma mesa de bar aguarda meu corpo!
Um gole gelado de cerveja
Amacia...
Aglutina...
Desatina...
Sai rancor!
Ficam versos e saudades
A voar na noite.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
O MORTO
Tarde!
Mas cansado não estava. Abriu a porta da rua. Entrou. A sala às escuras. Tateou a parede. Luz.
Sentiu sede, mas antes tirou a camisa. Sentia calor. Vinha da sede o calor? Ou o calor dava sede? Riu de suas perguntas. Assim se faz o inicio do louco. Encheu um copo com água. O líquido desliza pela garganta. Melhora a secura. Umidifica.
Mas o sabor não sai. Tira toda a roupa. De cuecas ruma para o quarto. A mulher dorme quase nua. Mas sente o abafado do aposento. Odor de suor da fêmea. Mas isso não o excita, pois o sabor não sai.
Volta a sala e sente agora outro odor. Aquele deixado do outro lado da cidade. O do corpo de Marcela. Fecha os olhos. E assim sai voando, sentindo, cheirando... E o sabor volta, não sai. Fica.
Acende um cigarro e se esparrama na poltrona da sala. Olha o relógio. Quatro da matina.
Tarde!
Mas cansado não estava. Seus olhos fitam o teto. Sente de novo o cheiro deixado do outro lado da cidade. Marcela. Marcela. Marcela. E nela se envolve junto com a fumaça no cigarro e com o sabor da carne macia e com o odor da pele e dos cabelos.
Agora está excitado. Mas o calor da sala começa a abafar e a fazer o suor escorrer. Apaga o cigarro. Ruma para o quarto. A mulher dorme agora coberta pelo lençol branco. Deita-se ao lado.
O ventilador de parede faz um zum e zum extraordinário nos seus ouvidos. Tira a cueca. Está morto. Ri com o fato. Pega o morto. Solta o morto. Que coisa! Isso também faz o início do louco.
A mulher rola na cama. Um dos braços dela cai sobre sua barriga. A mão toca o morto. Ele fica teso. Está morto mesmo. Porra! Espera. Volta a escutar o zum zum do fazedor de vento. O morto é agarrado. Apertado. Porra! O morto acorda e ele volta do outro espaço.
Apenas um sonho!
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
Mas cansado não estava. Abriu a porta da rua. Entrou. A sala às escuras. Tateou a parede. Luz.
Sentiu sede, mas antes tirou a camisa. Sentia calor. Vinha da sede o calor? Ou o calor dava sede? Riu de suas perguntas. Assim se faz o inicio do louco. Encheu um copo com água. O líquido desliza pela garganta. Melhora a secura. Umidifica.
Mas o sabor não sai. Tira toda a roupa. De cuecas ruma para o quarto. A mulher dorme quase nua. Mas sente o abafado do aposento. Odor de suor da fêmea. Mas isso não o excita, pois o sabor não sai.
Volta a sala e sente agora outro odor. Aquele deixado do outro lado da cidade. O do corpo de Marcela. Fecha os olhos. E assim sai voando, sentindo, cheirando... E o sabor volta, não sai. Fica.
Acende um cigarro e se esparrama na poltrona da sala. Olha o relógio. Quatro da matina.
Tarde!
Mas cansado não estava. Seus olhos fitam o teto. Sente de novo o cheiro deixado do outro lado da cidade. Marcela. Marcela. Marcela. E nela se envolve junto com a fumaça no cigarro e com o sabor da carne macia e com o odor da pele e dos cabelos.
Agora está excitado. Mas o calor da sala começa a abafar e a fazer o suor escorrer. Apaga o cigarro. Ruma para o quarto. A mulher dorme agora coberta pelo lençol branco. Deita-se ao lado.
O ventilador de parede faz um zum e zum extraordinário nos seus ouvidos. Tira a cueca. Está morto. Ri com o fato. Pega o morto. Solta o morto. Que coisa! Isso também faz o início do louco.
A mulher rola na cama. Um dos braços dela cai sobre sua barriga. A mão toca o morto. Ele fica teso. Está morto mesmo. Porra! Espera. Volta a escutar o zum zum do fazedor de vento. O morto é agarrado. Apertado. Porra! O morto acorda e ele volta do outro espaço.
Apenas um sonho!
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 23 de junho de 2010.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
RECIFE - NA PASSAGEM DAS HORAS
Rafael Rocha – 8 de junho de 2010
Os automóveis passam rápido pelo asfalto da avenida e os bares vão se infestando de homens vazios. Na grande maioria de desempregados, filando algumas horas de lazer aos bolsos dos camaradas possuidores de meios para financiar seus vícios e suas solidões. As buzinas ressoam estridentes. Os canos de escapamento soltam gás carbônico. Os camelôs gritam suas mercadorias e todas elas são especiais e mais baratas que as do mais próximo concorrente. As prostitutas vendem o corpo, sem observar as precárias possibilidades de compra dos homens. Quando consigo uma concentração maior para ver/escutar o bulício da cidade, um ônibus acerta um automóvel e deixa atrás de si todo o tráfego da avenida estrangulado, seguindo-se buzinas, palavrões e gestos obscenos.
Fico estacionado na ponte Duarte Coelho a olhar o coração da cidade a pulsar na Avenida Guararapes. Poderia estar em outro lugar, no começo da Rua Nova a olhar a Avenida Dantas Barreto, pululando de gente, ou na Rua 1º de Março, ou na Avenida Conde da Boa Vista. A visão que se me depara é e será sempre a mesma. No Bar do Sargento, lá no Pátio de São Pedro, sorvo uma cerveja gelada de forma um tanto inconsciente. Vejo no Pátio um oficial militar quase a arrancar o braço de um pivete e a multidão, cercando-os cheia de sadismo, quase todos rindo com o feitiço da violência e outros nos gritos e gestos próprios manicomiais. O garoto, na única coisa a poder fazer, se contorce e chora.
Então consigo observar o quanto a cidade cresceu e se reduziu. Cresceu em pedra vertical, em ferros e pneus, em homens e mulheres transitórios e se reduziu ao horizontal da indiferença. Ainda existe a poesia do antigo, mas todos os cálculos se baseiam na intensidade do agora, pois o amanhã se manifesta como o tarde demais. Não existe salvação para esses pormenores. Os paliativos que possam ser usados para uma humanização completa, estão ao alcance das pessoas, mas essas esqueceram a educação comunitária, vítimas de um crescimento desordenado e sem infraestrutura, criando a realidade dentro da ótica mercantilista, própria aos vândalos.
Há muita coisa que se ver.
Na hora do rush os carros e os ônibus deslizam pelas avenidas, abrindo caminho para o sossego dos bairros e subúrbios e as pessoas andam pelas calçadas numa situação de ligeiros tristes sem comentários para o futuro. Sempre cada vez mais depressa, pois em qualquer esquina existe a possibilidade de um assalto. Sempre cada vez mais depressa para que não se possa enfrentar a herança da futura megalópole capitalista. A noite que começa ainda traz alguns boêmios à antiga para os bares da Rua da Roda, e as avenidas Guararapes e Dantas Barreto ficam coalhadas de filas de transeuntes em busca de seus ônibus suburbanos.
Há muita coisa para se ver. A pracinha da Independência deixou de ser apenas uma praça. Parece-se mais com um grande circo ambulante cheio de personagens felinianos. Tudo anda feio e sujo na esperança de que exista um possivelmente para clarear aos coisas feitas pelos homens. No entanto, as coisas não aparecem ver a luz no fim do túnel e a população continua afeita ao obscuro que obriga ao cultivo da depredação do próprio habitat.
Parece uma imagem surrealista, mas não é. É acima de tudo a realidade pobre de uma pequena metrópole em crescimento vertiginoso. Os camelôs apertam os transeuntes uns contra os outros, na Praça do Carmo, reprimindo a liberdade de ir e vir. Os vendedores de frutas espalham suas preciosidades pelos calçadões da Avenida Dantas Barreto. Mendigos esfarrapados interpelam as pessoas nas filas dos ônibus, nos bares e nas ruas revitalizadas. Mulheres em andrajos amamentam os filhos e os apresentam aos olhos dos passantes em busca da caridade alheia. Nos semáforos. Em frente das grandes lojas. Tudo uma verdadeira Babel, uma feira medieval, um mercado persa. Pense-se como achar melhor.
Todos podem pensar como achar que seja bem. A cidade é um ser abstrato que vive dos estímulos dos homens. A vida escorre nas ruas como o sangue pelas nossas artérias. As pessoas mais velhas lembram com saudosismo a antiga amplitude de suas paisagens. Até chegam a se perguntar, como os jovens de hoje, os idosos dos próximos 50 anos, conseguirão descrever para seus netos a poesia e o lirismo de sua época. O Recife de antanho era a calmaria e a boemia justapostas aos contrastes provincianos da alma nordestina. O Recife, agora, é um cartão postal de vandalismo, e da indiferença dos seus cidadãos.
Na passagem das horas, as ruas vão se esvaziando. Quase todas as pessoas começam o movimento de partida. Querendo vê-las eu fico no mesmo lugar de sempre. Qualquer um desses bares. Qualquer uma dessas pontes. É muito interessante observar uma cidade adormecer. Um adormecimento de solidão momentânea, pois dentro de algumas horas o novo dia irá transformá-la freneticamente. Existem os que partem para o aconchego de suas casas. Existem os que ficam curtindo a noite e sentindo a transformação das horas da cidade. O Rio Capibaribe é o único que não adormece. Sempre a postos como vigilante eterno de todas suas margens.
Tempo para ver, tempo para sentir. Tempo para lembrar e tempo para perguntar a si próprio como essa cidade estará retratada nos próximos 50 anos. Não estarei vivo para ver, sentir todas essas horas, todos esses dias que vão passar. Saio caminhando pelas ruas desertas dentro da escuridão da noite. Aqui e ali algum notívago desponta, fazendo a declinação das sombras entre as paredes dos novos edifícios. Pela Avenida Conde da Boa Vista quero alcançar a Avenida Guararapes e partir para o impacto da solidão do Cais de Santa Rita. Revejo em transe hipnótico os grandes barcos atracando no cais, hoje um enorme estacionamento de ônibus, e lá longe, mas tão perto da minha visão de criança, a ponte Giratória se abrindo e dando passagem a um novo barco a vela.
Na passagem das horas escoa-se o tempo. Pensar na cidade como um ser humano é dar um sentido de vida condizente com sua necessidade de juventude. Sinto que o Recife nunca deveria envelhecer. Sinto que suas ruas, artérias do seu esqueleto de ferro e aço e asfalto e seres humanos, deveriam sempre ficar impregnadas de uma poesia própria. Cidade de um sentimento nivelado aos anseios de todos seus habitantes.
Na passagem das horas a vida continua. Continua para um extremo enigmático. Não podemos saber onde se localiza o ponto de chegada. Se fosse possível solicitar aos deuses defensores dessa cidade edificada sobre os mangues e sobre os areais litorâneos de Pernambuco, assim seja: no encontro das águas dos rios que a cortam, uma gênese de fé e de esperança. Um renascimento humanitário para as gerações futuras. A História não estaciona. Novos tempos trarão novas paisagens, outras novas pessoas e novas memórias para a sua poesia. Quando isso acontecer, o rio, vigilante da terra, poderá cantar a canção que guarda no seu seio desde tempos imemoriais e nós poderemos fazer a evocação da cidade de um modo muito mais eloqüente que o do poeta.
Jamais como o Recife que possamos aprender a amar depois. E ainda menos como o Recife da nossa infância. Sim, como o Recife transbordante de emoções. Como o Recife cheio de raízes íntimas às nossas entranhas. Como o Recife de todos os homens, de todas as mulheres, de todos os poetas. O Recife uniforme. O Recife em trâmites de esperança. O Recife que hoje se constrói para o futuro em extrema pobreza, para se assemelhar aos olhos dos próximos filhos como sempre se compraz: em feitio de água, de sol e de pendores místicos.
Os automóveis passam rápido pelo asfalto da avenida e os bares vão se infestando de homens vazios. Na grande maioria de desempregados, filando algumas horas de lazer aos bolsos dos camaradas possuidores de meios para financiar seus vícios e suas solidões. As buzinas ressoam estridentes. Os canos de escapamento soltam gás carbônico. Os camelôs gritam suas mercadorias e todas elas são especiais e mais baratas que as do mais próximo concorrente. As prostitutas vendem o corpo, sem observar as precárias possibilidades de compra dos homens. Quando consigo uma concentração maior para ver/escutar o bulício da cidade, um ônibus acerta um automóvel e deixa atrás de si todo o tráfego da avenida estrangulado, seguindo-se buzinas, palavrões e gestos obscenos.
Fico estacionado na ponte Duarte Coelho a olhar o coração da cidade a pulsar na Avenida Guararapes. Poderia estar em outro lugar, no começo da Rua Nova a olhar a Avenida Dantas Barreto, pululando de gente, ou na Rua 1º de Março, ou na Avenida Conde da Boa Vista. A visão que se me depara é e será sempre a mesma. No Bar do Sargento, lá no Pátio de São Pedro, sorvo uma cerveja gelada de forma um tanto inconsciente. Vejo no Pátio um oficial militar quase a arrancar o braço de um pivete e a multidão, cercando-os cheia de sadismo, quase todos rindo com o feitiço da violência e outros nos gritos e gestos próprios manicomiais. O garoto, na única coisa a poder fazer, se contorce e chora.
Então consigo observar o quanto a cidade cresceu e se reduziu. Cresceu em pedra vertical, em ferros e pneus, em homens e mulheres transitórios e se reduziu ao horizontal da indiferença. Ainda existe a poesia do antigo, mas todos os cálculos se baseiam na intensidade do agora, pois o amanhã se manifesta como o tarde demais. Não existe salvação para esses pormenores. Os paliativos que possam ser usados para uma humanização completa, estão ao alcance das pessoas, mas essas esqueceram a educação comunitária, vítimas de um crescimento desordenado e sem infraestrutura, criando a realidade dentro da ótica mercantilista, própria aos vândalos.
Há muita coisa que se ver.
Na hora do rush os carros e os ônibus deslizam pelas avenidas, abrindo caminho para o sossego dos bairros e subúrbios e as pessoas andam pelas calçadas numa situação de ligeiros tristes sem comentários para o futuro. Sempre cada vez mais depressa, pois em qualquer esquina existe a possibilidade de um assalto. Sempre cada vez mais depressa para que não se possa enfrentar a herança da futura megalópole capitalista. A noite que começa ainda traz alguns boêmios à antiga para os bares da Rua da Roda, e as avenidas Guararapes e Dantas Barreto ficam coalhadas de filas de transeuntes em busca de seus ônibus suburbanos.
Há muita coisa para se ver. A pracinha da Independência deixou de ser apenas uma praça. Parece-se mais com um grande circo ambulante cheio de personagens felinianos. Tudo anda feio e sujo na esperança de que exista um possivelmente para clarear aos coisas feitas pelos homens. No entanto, as coisas não aparecem ver a luz no fim do túnel e a população continua afeita ao obscuro que obriga ao cultivo da depredação do próprio habitat.
Parece uma imagem surrealista, mas não é. É acima de tudo a realidade pobre de uma pequena metrópole em crescimento vertiginoso. Os camelôs apertam os transeuntes uns contra os outros, na Praça do Carmo, reprimindo a liberdade de ir e vir. Os vendedores de frutas espalham suas preciosidades pelos calçadões da Avenida Dantas Barreto. Mendigos esfarrapados interpelam as pessoas nas filas dos ônibus, nos bares e nas ruas revitalizadas. Mulheres em andrajos amamentam os filhos e os apresentam aos olhos dos passantes em busca da caridade alheia. Nos semáforos. Em frente das grandes lojas. Tudo uma verdadeira Babel, uma feira medieval, um mercado persa. Pense-se como achar melhor.
Todos podem pensar como achar que seja bem. A cidade é um ser abstrato que vive dos estímulos dos homens. A vida escorre nas ruas como o sangue pelas nossas artérias. As pessoas mais velhas lembram com saudosismo a antiga amplitude de suas paisagens. Até chegam a se perguntar, como os jovens de hoje, os idosos dos próximos 50 anos, conseguirão descrever para seus netos a poesia e o lirismo de sua época. O Recife de antanho era a calmaria e a boemia justapostas aos contrastes provincianos da alma nordestina. O Recife, agora, é um cartão postal de vandalismo, e da indiferença dos seus cidadãos.
Na passagem das horas, as ruas vão se esvaziando. Quase todas as pessoas começam o movimento de partida. Querendo vê-las eu fico no mesmo lugar de sempre. Qualquer um desses bares. Qualquer uma dessas pontes. É muito interessante observar uma cidade adormecer. Um adormecimento de solidão momentânea, pois dentro de algumas horas o novo dia irá transformá-la freneticamente. Existem os que partem para o aconchego de suas casas. Existem os que ficam curtindo a noite e sentindo a transformação das horas da cidade. O Rio Capibaribe é o único que não adormece. Sempre a postos como vigilante eterno de todas suas margens.
Tempo para ver, tempo para sentir. Tempo para lembrar e tempo para perguntar a si próprio como essa cidade estará retratada nos próximos 50 anos. Não estarei vivo para ver, sentir todas essas horas, todos esses dias que vão passar. Saio caminhando pelas ruas desertas dentro da escuridão da noite. Aqui e ali algum notívago desponta, fazendo a declinação das sombras entre as paredes dos novos edifícios. Pela Avenida Conde da Boa Vista quero alcançar a Avenida Guararapes e partir para o impacto da solidão do Cais de Santa Rita. Revejo em transe hipnótico os grandes barcos atracando no cais, hoje um enorme estacionamento de ônibus, e lá longe, mas tão perto da minha visão de criança, a ponte Giratória se abrindo e dando passagem a um novo barco a vela.
Na passagem das horas escoa-se o tempo. Pensar na cidade como um ser humano é dar um sentido de vida condizente com sua necessidade de juventude. Sinto que o Recife nunca deveria envelhecer. Sinto que suas ruas, artérias do seu esqueleto de ferro e aço e asfalto e seres humanos, deveriam sempre ficar impregnadas de uma poesia própria. Cidade de um sentimento nivelado aos anseios de todos seus habitantes.
Na passagem das horas a vida continua. Continua para um extremo enigmático. Não podemos saber onde se localiza o ponto de chegada. Se fosse possível solicitar aos deuses defensores dessa cidade edificada sobre os mangues e sobre os areais litorâneos de Pernambuco, assim seja: no encontro das águas dos rios que a cortam, uma gênese de fé e de esperança. Um renascimento humanitário para as gerações futuras. A História não estaciona. Novos tempos trarão novas paisagens, outras novas pessoas e novas memórias para a sua poesia. Quando isso acontecer, o rio, vigilante da terra, poderá cantar a canção que guarda no seu seio desde tempos imemoriais e nós poderemos fazer a evocação da cidade de um modo muito mais eloqüente que o do poeta.
Jamais como o Recife que possamos aprender a amar depois. E ainda menos como o Recife da nossa infância. Sim, como o Recife transbordante de emoções. Como o Recife cheio de raízes íntimas às nossas entranhas. Como o Recife de todos os homens, de todas as mulheres, de todos os poetas. O Recife uniforme. O Recife em trâmites de esperança. O Recife que hoje se constrói para o futuro em extrema pobreza, para se assemelhar aos olhos dos próximos filhos como sempre se compraz: em feitio de água, de sol e de pendores místicos.
terça-feira, 1 de junho de 2010
PRIMEIRO PARTO POÉTICO - 1979

MEIO A MEIO - Meu primeiro livro de poesias, nasceu após muita luta e quando ainda cursava Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. O livro é fruto de uma época de luta contra a ditadura e contra os preconceitos e discriminações. Foi lançado no mes de setembro de 2009, na Casa da Cultura do Recife e bem recebido pela crítica. Produção independente, como acontecia na época. O autor pagava do próprio bolso a confecção de suas obras. Abaixo insiro o poema que dá titulo ao livro e mais dois.
MEIO A MEIO
Aqui a poesia
Vem pela metade
Abre-se para o espaço
Reafirma-se mais.
Reafirma-se mais
Ouve a voz do tempo
Angústias e tormentos
Dos poetas que sofrem.
Os poetas sofrem
Porém são mais felizes
Arremessam-se viris
Em todas as fronteiras
Nas fronteiras todas
Baionetas caladas
Atravessam os poetas
Sem terem convites
Eles reafirmam-se mais
Abrem-se para o espaço
Juntam-se à outra metade:
A poesia, aqui.
..........................................
CONJUGAÇÃO DO PRESENTE
Retrato vitalício de angústias
Arrendamento de artérias sanguíneas
Os canibais povoam as ilhas isoladas
Dos neutros homens.
Prolongamento de túneis petrificados.
Rios de poeira comprimindo as pálpebras.
Noites de intensas lágrimas e sangue, imoladas
Nos neutros homens.
Comboios de desejos em condensações.
Trilhos de ferro negro onde geme-se dormindo.
Casas caiadas de branco e habitantes cinzentos abraçados
Aos neutros homens.
Vestimentas de aço e mãos que estrangulam flores.
Manadas de javalis selvagens, ferozes e famintos.
Estão sendo sugadas as artérias dos homens neutros
Em transes infinitos.
................................................
ÀS ESTÁTUAS VIVAS
Os homens estão perdendo as auroras
Na noite negra que desaba sobre o mundo.
Junto a que ideal anda a palavra de ordem
Para essa dor que rola aos nossos pés?
Palácios são erguidos aos caudilhos da Terra
E o construtor de estátuas perde-se no crepúsculo.
As faces dos homens andam feito pedras.
Por que eles estão distantes?
Por que eles estão tão frios?
De hora à outra as auroras adormecem
E uma noite negra desaba sobre os homens.
Apenas uma ansiedade envolve sua história
Num surto de gritos, gemidos e belicismos.
Mas, mesmo com os olhos buscando o orvalho,
Os homens deixam-se a vagar no frio do inverno.
E palácios são erguidos...
Palácios são erguidos aos caudilhos da Terra!
E os lapidadores da pedra dormem sob a lama!
Por que eles não acordam?
Por que são tão frios como estátuas?
........................
Versos escritos entre os anos de 1975 e 1979
sábado, 22 de maio de 2010
MARCAÇÃO DO TEMPO

Houve um começo de tal impacto profundo
Colidindo entre os nomes e os corpos.
Por isso hoje navegamos todos para trás
Com nossos fantasmas de mundo morto
Na marcação constante de nossos tempos.
Sim. Já cataclismou-se o primeiro ato
Ainda que não tenhamos alcançado o último
Na rota incerta de nossas vidas aguardamos
O impacto final para qualquer dia desses.
Não sei se terei medo. Teremos medo? Terás?
Um muito e muito tinir de copos e brilhos
Nas mesas dos bares onde o tempo se marca
E ao longo das centenas de esquinas das ruas
Por onde passaram os sonhos dos poetas.
Tudo vai se dissipando melancolicamente.
Sim, se houve um primeiro o ato do meio desliza
Todos nós já de olhares fixos na última ação.
Brotam saudades. Tem-se certeza completa
De que nunca mais tocaremos nossos corpos.
É a marcação do tempo. A profecia do fim.
Tiveram muitas luzes nossas antigas noites...
Amigos meus, muitas luzes acendidas
Sonhos criados e incriados. Destinos feitos.
Sim, houve um começo e haverá um fim
E está ficando cada vez mais perto este fim.
Nossas estrelas já estão a ser agonizantes.
Os corpos que abraçamos e os lábios beijados.
E aqueles toques sutis a lembrar anseios idos.
As pedras, camaradas, estão a se quebrar.
E nós dando adeuses neste partir daqui.
© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife, 15 de abril de 2010.
domingo, 16 de maio de 2010
POETAR
Os amigos ditos tão presentes
Estão ausentes do meu lupanar
Onde criei versos condizentes
Ao meu anseio de pensar
As amigas ditas tão ausentes
Ficaram vivas neste lugar
Para elas fiz versos e repentes
Tentando obrigá-las a pensar
Tenho pessoas vivas no caminho
A demonstrar vivo carinho
Por tudo a pretender cantar.
E o verso abre alas a mil espaços
E voa em busca de teus braços
Simplesmente para poetar.
---
© Copyright by Rafael Rocha Neto
Estão ausentes do meu lupanar
Onde criei versos condizentes
Ao meu anseio de pensar
As amigas ditas tão ausentes
Ficaram vivas neste lugar
Para elas fiz versos e repentes
Tentando obrigá-las a pensar
Tenho pessoas vivas no caminho
A demonstrar vivo carinho
Por tudo a pretender cantar.
E o verso abre alas a mil espaços
E voa em busca de teus braços
Simplesmente para poetar.
---
© Copyright by Rafael Rocha Neto
ACEITAÇÃO COMPLETA
Mulher, quando teu beijo chegar em minha boca
Toma tento para não ficar louca de paixão.
Para que tua ternura por mim não morra
Nem se afogue no pranto de alguma desilusão.
Quanto teu beijo alcançar a minha boca
Seja doçura de abelha-mãe a se conectar
Seja uma delícia de mel a se esmiuçar
Seja anseio e verdadeira paixão louca
E jamais desfaça, mulher, tua paixão líquida
Assuma teu anseio de mim com uma sede
Saiba ser tempestade, mulher, e aceite
Ser chamada de amor, de doçura, de querida.
Quem sabe um dia de mãos dadas, alegrias
Sejam nossas companheiras de loucura.
E nossos beijos multipliquem as nostalgias
Matando do passado qualquer outra amargura.
-------
© Copyright by Rafael Rocha Neto.
Toma tento para não ficar louca de paixão.
Para que tua ternura por mim não morra
Nem se afogue no pranto de alguma desilusão.
Quanto teu beijo alcançar a minha boca
Seja doçura de abelha-mãe a se conectar
Seja uma delícia de mel a se esmiuçar
Seja anseio e verdadeira paixão louca
E jamais desfaça, mulher, tua paixão líquida
Assuma teu anseio de mim com uma sede
Saiba ser tempestade, mulher, e aceite
Ser chamada de amor, de doçura, de querida.
Quem sabe um dia de mãos dadas, alegrias
Sejam nossas companheiras de loucura.
E nossos beijos multipliquem as nostalgias
Matando do passado qualquer outra amargura.
-------
© Copyright by Rafael Rocha Neto.
VERSOS DESTILADOS
Deste meu lugar destilo os versos de minhas fibras
Aos braços das mulheres ansiosas por meu canto.
Não só tão ansiosas, mas ainda repletas de desejos
E loucuras de carne e beijos e repetidas carícias.
Tenho a mulher como um espaço poético maciço
Loura, negra, branca... Todas têm segredos fixos...
E do jeito que as quero nos meus sonhos da vida
Quero-as no real de mim presas em minha caminhada.
Corpo de mulher! Que desvario para minhas noites!
Cheiros, maciezas, umidades de pelos e de lábios.
Assim como as margens de um rio recebem ondas
Meu corpo recebe as mesmas carícias dos desejos.
Deste meu lugar escrevo os versos concretos de mim
Para os olhos das belas ninfas ansiosas pelo canto.
Não apenas ansiosas elas são. São todas ansiadas.
Seus beijos e seus anelos. Seus ventres e suas almas.
Corpo feminino a se mostrar aberto aos meus anseios.
Deglutirei o sabor dos seios e o sal de tuas vísceras.
Corpo feminino a espelhar risos e outros encantos
Mergulharei rijo para conhecer teu interior secreto.
Deste meu lugar o corpo anseia por gestos obscenos
Numa cama e entre as macias pernas da fêmea agitada.
Deste lugar um oceano recebe ventos de tormenta
E naufragam meus navios nas procelosas vagas.
Quando ficas calma, corpo de mulher, és terra macia.
Onde o náufrago desliza na busca da sobrevivência.
Antes pensar em sobreviver morrendo dentro em ti.
Antes pensar em morrer sobrevivendo em teu plano.
Ainda que o poeta deva acreditar no plano próprio.
Homem que sabe ver a tua miragem no oceano.
E por mais poeta a definir ventos tempestuosos
Seja o homem o espelho e a transmutação do canto.
Canto venéreo. Canto sexual. Canto livre e sem árbitro.
Sejas tu, mulher, o destino. Sejas, tu, o último parto
Onde eu possa mergulhar em cheiros e umidades novas
E repartir contigo estes versos lúcidos e suados.
Aos braços das mulheres ansiosas por meu canto.
Não só tão ansiosas, mas ainda repletas de desejos
E loucuras de carne e beijos e repetidas carícias.
Tenho a mulher como um espaço poético maciço
Loura, negra, branca... Todas têm segredos fixos...
E do jeito que as quero nos meus sonhos da vida
Quero-as no real de mim presas em minha caminhada.
Corpo de mulher! Que desvario para minhas noites!
Cheiros, maciezas, umidades de pelos e de lábios.
Assim como as margens de um rio recebem ondas
Meu corpo recebe as mesmas carícias dos desejos.
Deste meu lugar escrevo os versos concretos de mim
Para os olhos das belas ninfas ansiosas pelo canto.
Não apenas ansiosas elas são. São todas ansiadas.
Seus beijos e seus anelos. Seus ventres e suas almas.
Corpo feminino a se mostrar aberto aos meus anseios.
Deglutirei o sabor dos seios e o sal de tuas vísceras.
Corpo feminino a espelhar risos e outros encantos
Mergulharei rijo para conhecer teu interior secreto.
Deste meu lugar o corpo anseia por gestos obscenos
Numa cama e entre as macias pernas da fêmea agitada.
Deste lugar um oceano recebe ventos de tormenta
E naufragam meus navios nas procelosas vagas.
Quando ficas calma, corpo de mulher, és terra macia.
Onde o náufrago desliza na busca da sobrevivência.
Antes pensar em sobreviver morrendo dentro em ti.
Antes pensar em morrer sobrevivendo em teu plano.
Ainda que o poeta deva acreditar no plano próprio.
Homem que sabe ver a tua miragem no oceano.
E por mais poeta a definir ventos tempestuosos
Seja o homem o espelho e a transmutação do canto.
Canto venéreo. Canto sexual. Canto livre e sem árbitro.
Sejas tu, mulher, o destino. Sejas, tu, o último parto
Onde eu possa mergulhar em cheiros e umidades novas
E repartir contigo estes versos lúcidos e suados.
sábado, 15 de maio de 2010
FÉ RELIGIOSA NÃO É CONHECIMENTO
O crescer dos pensamentos científico e filosófico está colocando para escanteio, aos poucos, os partidários da ignorância dogmática, camaradas. A sociedade pós-moderna está sendo transformada de forma gradativa, é claro, mas a compreensão de mundo desta sociedade está mudando. Apesar da guerra do poder religioso contra o poder cientifico, essa mudança é notória. As conquistas da ciência, a formação do pensamento crítico e a renovação das gerações começam a aniquilar todos os paradigmas baseados em princípios dogmáticos. Viver apenas pela fé, hoje, é simplesmente falta de formação crítica ou desinteresse em conhecer.
Em tempos muito pouco distantes o poder religioso não media esforços para afastar as pessoas do refletir filosófico. Ainda hoje, esse poder luta acirradamente para manter as pessoas na ignorância. Ainda hoje, muitas religiões consideram como de fundamental importância que a sociedade não tenha consciência própria. O poder religioso sabe que a universalização do conhecimento de forma crítica, irá dificultar a propagação da religiosidade entre os povos. Fé e conhecimento não podem ocupar o mesmo espaço. O saber qualitativamente produzido só pode acontecer na razão inversamente proporcional às crenças nas fantasias religiosas e sobrenaturais.
Camaradas, atualmente o mundo vive e se interpenetra em grandiosos avanços tecnológicos e novas descobertas científicas. A informatização faz com que os países fiquem a cada dia mais próximos uns de outros, fato que facilita as pesquisas e a troca de comunicação entre as pessoas. Tudo acontece rapidamente. Uma nova Revolução está batendo em nossas portas com a grande globalização do mundo com relação à informação.
O grande filósofo Friedrich Nietzsche estava certo quando dizia que “a fé não remove montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”. Portanto, no limiar deste milênio, os mistérios estão sendo revelados cientificamente ao homem. Claro que as perguntas - Quem sou? De onde vim? Para onde vou depois de morrer? - irão ser respondidas através do conhecimento cientifico, mas já é lícito responder a elas de forma simples. O homem é um produto do meio ambiente. Não foi criado nem planejado por nenhum deus. Nasceu do acaso e evoluiu. Não vai para lugar algum (inferno ou paraíso) depois de morto. Simplesmente voltará a ser o que sempre foi. Reunir-se-á aos átomos circunscritos ao planeta Terra.
Camaradas, na enciclopédia da fé não existem respostas convincentes para as indagações humanas. Tudo porque fé religiosa não é conhecimento científico. E muito menos fé religiosa pode se irmanar com a filosofia, como estão a tentar fazer os medrosos deste mundo, os quais, por desejarem a vida eterna, buscam escrever uma chamada filosofia da fé. Thomas de Aquino já tentou fazer isso e terminou deturpando a filosofia aristotélica. Mentiu para idealizar a vida eterna. Sim, porque ditos filósofos da religião sempre deturparam a verdade.
Queremos deixar bem claro, camaradas, que o poder religioso nunca simpatizou com a filosofia. A filosofia é uma pedra no caminho da crença do mundo mágico criacionista. Isso nos leva a lembrar do filósofo Platão e sua academia e até da audácia de Giordano Bruno. Na época negra de quando o poder religioso mandava e desmandava, todo material produzido por uma reflexão crítica era apreendido e queimado. Por que isso, camaradas? Simples: tal material podia despertar as pessoas e retirá-las da inocência. Então, eis algumas inquirições: por que a tal verdade pregada pelos religiosos não pode ser questionada? Eles têm medo que a verdade deles possa ser uma mentira? E se essa verdade for realmente verdadeira, sendo o posicionamento crítico uma busca do conhecimento real, essa tal verdade não sairia mais fortalecida se estivesse aberta à discussão?
Camaradas, descobrimos coisas estranhas e esquisitas no centro do poder religioso de hoje. Seus poderosos colocam a fé como argumento principal, o que significa dizer aos homens e mulheres deste mundo: não discutam, respeitem a religião dos outros. Mas, camaradas, nós conceituamos isso como submissão. É o mesmo que querer submeter pessoas a atitudes passivas e a fazê-las aceitar somente o que está sendo verbalizado, falado e apresentado. Respeitar é sinônimo de calar, camaradas? Não será por acaso medo de escutar o que o outro tem a falar? Se a fé tem algum fundamento, porque é que tentam protegê-la tanto da razão? Se ela não é um castelo de areia, por que o poder religioso não a expõe às procelas e às críticas da reflexão científica?
Simples, camaradas. Fé religiosa não é conhecimento. Todo e qualquer poder religioso só divulga fantasias, seja em livros, revistas, emissoras de televisão, filmes etc. Inculcar o medo é a fórmula maior para a existência de seus deuses, santos, santas e mártires. Medo de morrer e perder uma pretensa vida eterna. Medo de viver a vida com intensidade pensando que está a pecar. Medo de enfrentar uma realidade que não é a realidade escrita nos livros religiosos. Medo, principalmente, do inexistente deus perante o qual se ajoelha e que, por não existir, simplesmente não pode interagir junto aos seus fiéis.
Em tempos muito pouco distantes o poder religioso não media esforços para afastar as pessoas do refletir filosófico. Ainda hoje, esse poder luta acirradamente para manter as pessoas na ignorância. Ainda hoje, muitas religiões consideram como de fundamental importância que a sociedade não tenha consciência própria. O poder religioso sabe que a universalização do conhecimento de forma crítica, irá dificultar a propagação da religiosidade entre os povos. Fé e conhecimento não podem ocupar o mesmo espaço. O saber qualitativamente produzido só pode acontecer na razão inversamente proporcional às crenças nas fantasias religiosas e sobrenaturais.
Camaradas, atualmente o mundo vive e se interpenetra em grandiosos avanços tecnológicos e novas descobertas científicas. A informatização faz com que os países fiquem a cada dia mais próximos uns de outros, fato que facilita as pesquisas e a troca de comunicação entre as pessoas. Tudo acontece rapidamente. Uma nova Revolução está batendo em nossas portas com a grande globalização do mundo com relação à informação.
O grande filósofo Friedrich Nietzsche estava certo quando dizia que “a fé não remove montanhas, mas coloca montanhas onde elas não existem”. Portanto, no limiar deste milênio, os mistérios estão sendo revelados cientificamente ao homem. Claro que as perguntas - Quem sou? De onde vim? Para onde vou depois de morrer? - irão ser respondidas através do conhecimento cientifico, mas já é lícito responder a elas de forma simples. O homem é um produto do meio ambiente. Não foi criado nem planejado por nenhum deus. Nasceu do acaso e evoluiu. Não vai para lugar algum (inferno ou paraíso) depois de morto. Simplesmente voltará a ser o que sempre foi. Reunir-se-á aos átomos circunscritos ao planeta Terra.
Camaradas, na enciclopédia da fé não existem respostas convincentes para as indagações humanas. Tudo porque fé religiosa não é conhecimento científico. E muito menos fé religiosa pode se irmanar com a filosofia, como estão a tentar fazer os medrosos deste mundo, os quais, por desejarem a vida eterna, buscam escrever uma chamada filosofia da fé. Thomas de Aquino já tentou fazer isso e terminou deturpando a filosofia aristotélica. Mentiu para idealizar a vida eterna. Sim, porque ditos filósofos da religião sempre deturparam a verdade.
Queremos deixar bem claro, camaradas, que o poder religioso nunca simpatizou com a filosofia. A filosofia é uma pedra no caminho da crença do mundo mágico criacionista. Isso nos leva a lembrar do filósofo Platão e sua academia e até da audácia de Giordano Bruno. Na época negra de quando o poder religioso mandava e desmandava, todo material produzido por uma reflexão crítica era apreendido e queimado. Por que isso, camaradas? Simples: tal material podia despertar as pessoas e retirá-las da inocência. Então, eis algumas inquirições: por que a tal verdade pregada pelos religiosos não pode ser questionada? Eles têm medo que a verdade deles possa ser uma mentira? E se essa verdade for realmente verdadeira, sendo o posicionamento crítico uma busca do conhecimento real, essa tal verdade não sairia mais fortalecida se estivesse aberta à discussão?
Camaradas, descobrimos coisas estranhas e esquisitas no centro do poder religioso de hoje. Seus poderosos colocam a fé como argumento principal, o que significa dizer aos homens e mulheres deste mundo: não discutam, respeitem a religião dos outros. Mas, camaradas, nós conceituamos isso como submissão. É o mesmo que querer submeter pessoas a atitudes passivas e a fazê-las aceitar somente o que está sendo verbalizado, falado e apresentado. Respeitar é sinônimo de calar, camaradas? Não será por acaso medo de escutar o que o outro tem a falar? Se a fé tem algum fundamento, porque é que tentam protegê-la tanto da razão? Se ela não é um castelo de areia, por que o poder religioso não a expõe às procelas e às críticas da reflexão científica?
Simples, camaradas. Fé religiosa não é conhecimento. Todo e qualquer poder religioso só divulga fantasias, seja em livros, revistas, emissoras de televisão, filmes etc. Inculcar o medo é a fórmula maior para a existência de seus deuses, santos, santas e mártires. Medo de morrer e perder uma pretensa vida eterna. Medo de viver a vida com intensidade pensando que está a pecar. Medo de enfrentar uma realidade que não é a realidade escrita nos livros religiosos. Medo, principalmente, do inexistente deus perante o qual se ajoelha e que, por não existir, simplesmente não pode interagir junto aos seus fiéis.
O VESTIDO VIAJANTE (Cordel)
Um caso muito engraçado
Vou contar pra toda gente
A história de um vestido
Regalo bem diferente
Que saiu cá de Olinda
Todo chique e muito azul
Para o sertão da Bahia
À luz do Cruzeiro do Sul.
A história é verdadeira
E um tanto desmiolada
Ele desceu as ladeiras
Da cidade enfeitiçada.
O vestido precioso
Tal novo conto de fada
Foi recebido e guardado
Numa casa de Itaberaba.
Eu lembro da remetente
Pedindo a mim o endereço:
“É pra mandar o presente
Para quem eu tenho apreço.
Peço a tua ajuda, moço
Pra enviar esse regalo
Mas não faça alvoroço
Fica na tua, calado”.
O endereço lhe foi dado
Bem escrito do A ao Z
E o presente foi postado
Talvez num entardecer.
Mas antes a remetente
Desconfiada falou:
“Espero que esteja certo
O endereço que mandou”.
Disse eu: “Está mais certo
Que o sol que me alumia
Eu sou um cara correto
Que não se vê todo dia.
Já mandei o meu presente
Mas não assim exibido
E já chegou a notícia
Ele foi bem recebido”.
Ressabiada ela exclama:
“Não comece criticando
Meu presente é a chama
De quem está esperando
Do outro lado do mundo
Uma promessa já feita
Tem um feitiço profundo
Para me deixar aceita.”
De repente, certo dia...
Começou outra novela
O Correio devolvia
O tal presente pra ela
O vestido viajante
Começou a ser turista
E quase sem dar na vista
Voltou pra Olinda velha.
A remetente furiosa
Em cima de mim caiu:
“Ou é você ou é ela
A me fazer de chibiu.
Fiz a coisa toda airosa
E meu regalo tão lindo
Enviado todo prosa
De indo termina vindo”.
Respondi enraivecido
Com tanta desconfiança:
“Não venha a sua burrança
Mexer com minha libido.
Ou foi erro do Correio
Ou o carteiro esqueceu
Depois de um dia fudido
A rua que você escreveu.”
E lá no sertão da Bahia
A jovem aniversariante
Estava preocupada
Com o presente viajante
E como não era culpada
Daquilo que acontecia
Comentava ao poeta
Toda noite e todo dia:
“Dessas coisas não entendo
Meu endereço está certo
Não sou cigana nem vento
Para ter um rumo incerto
Se a culpa foi do carteiro
Tudo pode acontecer.
Pois o mundo brasileiro
Tem coisa pra inglês ver”.
Aconteceu de repente
Confirmado o endereço
Resolveu-se a remetente
No meio do Carnaval
Mandar de novo o presente
E disse pra mim no e-mail:
“Por apreço e em permeio
Chega por bem ou por mal”.
A mocinha tava ansiosa
E falou só para mim:
“Espero que essa coisa
Chegue logo por aqui.
Do jeito que a vida anda
Não posso negacear
Quero abrir sem tardança
E ver o que vou ganhar”.
Ninguém sabia que era
Um belo e azul vestido
Posto na fila de espera
De onde já tinha partido
Mas agora a presepada
Saiu de mal a pior
Em lugar de Itaberaba
Caiu em Feira o penhor.
Existe aqui na internet
Um tal de rastreamento
Para ver se o correio
Tá fazendo o movimento
E fez isso a remetente
Como o figurino manda
Ao rastrear o presente
A sua raiva desanda.
E até eu fiquei pasmo
Com essa coisa tão besta
Que acordei do marasmo
Quando cá fazia a sesta
Lá estava a louca insana
Da remetente a gritar:
“Por que em Feira de Santana
Foi meu regalo parar?”
Senti uma louca vontade
De começar a gargalhar.
Pois não é que era verdade
O seu novo reclamar?
O reenviado presente
Viajou pra outra cidade
E zombando da remetente
Ficou por lá a vadiar.
E nessas vindas e idas
De Olinda a Itaberaba
Venho gozar essas vidas
Novela que não acaba:
A baiana na espera!
A olindense arretada!
E em Feira de Santana
O presente não faz nada!
Dezenas de dias depois
E de mil telefonemas
O correio explica aos dois
O motivo do problema
O presente foi enviado
Em postagem especial
Um PAC meio safado:
Postagem Ao Carnaval!
Numa bela sexta-feira
O danado de repente
Chega direto de Feira
Mata a ânsia dessa gente
Tudo de cabeça quente
Pai, mãe, irmã e irmão:
“Abre logo esse demente!
Vamos ver a danação!”
Grande silêncio mouco
Encheu o meio da sala
E a menina aos poucos
Desempacota a mala
De lá sai outro pacote
E se ouvem gritos roucos:
“Tem um cheiro esquisito
Saindo desse malote!”
As mãos dela tremem tanto
Que a mãe vai ajudar
E ela cheia de espanto
Puxa aqui e acolá
Abrindo toda a sacola
Inicia o repuxar
E o azul de um tecido
Começa a se espraiar
De repente uma ventania
Sai daquele pacotaço.
E um cheiro de bruxaria
Enche todo aquele espaço.
E num só estardalhaço
Começa a espirradeira
“Evoé, quanto perfume!
É coisa de feiticeira!”
E o pai aparvalhado
Tira a palavra da boca:
“Menina que coisa é essa?
Essa tua amiga é louca!
É macumba de atrasado
Ou é despacho de Exu?
Esse vestido enfeitado
E todo na cor azul?”
E mais do que espantado
Continua a reclamar:
“Como é que agora vou
Beber no bar do Itamar?
O cheiro desse danado
Até na cueca entrou
E meu pau já tá melado
Com perfume de fulô”.
Nem a mãe é mais clemente
E não pode variar:
“Mocinha, esse presente
Acabou com o jantar.
A moqueca perfumou-se
E até o meu vatapá
O camarão ficou doce
Por causa desse cheirar.”
E o pior da história
Veio da irmã mais velha:
“Esse perfume é a glória
Me fez lembrar a Estela
E aqueles dias passados
A beijar as coxas dela
E no fazer cacheados
Catando perebas nela”.
Ainda mais arretado
O mano mais velho ficou:
“Isso é coisa de viado
A mexer com meu pendor.
Pois estou sentindo algo
Vindo do vestido azul
Como se sendo traçado
Lá no olho do meu cu”.
A menina aperriada
O vestido azul pegou
Sem pensar em mais nada
Ela o experimentou.
Caiu como uma luva
Assim sem tirar nem pôr
E como a terra à chuva
Ao feitiço se entregou.
Ela disse para mim:
“É um vestido de seda
Tem um cheiro de jasmim
A pegar logo que medra
Se tem mesmo um feitiço
Eu nem vou imaginar
Vestirei sem dar aviso
Ele não vai machucar”.
“Um presente assim bonito
Não se pode desprezar
Não tem nada de maldito
Nem coisa de Yemanjá.
É um regalo cheiroso
Difícil de imaginar
Tem algo assim de gostoso
Pro corpo saborear.”
Aqui acaba a história
Do vestido viajante
Saído da velha Olinda
À Itaberaba distante
Com seu azul de cetim
E perfume de jasmim
A mostrar como é linda
Uma amizade assim.
Vou contar pra toda gente
A história de um vestido
Regalo bem diferente
Que saiu cá de Olinda
Todo chique e muito azul
Para o sertão da Bahia
À luz do Cruzeiro do Sul.
A história é verdadeira
E um tanto desmiolada
Ele desceu as ladeiras
Da cidade enfeitiçada.
O vestido precioso
Tal novo conto de fada
Foi recebido e guardado
Numa casa de Itaberaba.
Eu lembro da remetente
Pedindo a mim o endereço:
“É pra mandar o presente
Para quem eu tenho apreço.
Peço a tua ajuda, moço
Pra enviar esse regalo
Mas não faça alvoroço
Fica na tua, calado”.
O endereço lhe foi dado
Bem escrito do A ao Z
E o presente foi postado
Talvez num entardecer.
Mas antes a remetente
Desconfiada falou:
“Espero que esteja certo
O endereço que mandou”.
Disse eu: “Está mais certo
Que o sol que me alumia
Eu sou um cara correto
Que não se vê todo dia.
Já mandei o meu presente
Mas não assim exibido
E já chegou a notícia
Ele foi bem recebido”.
Ressabiada ela exclama:
“Não comece criticando
Meu presente é a chama
De quem está esperando
Do outro lado do mundo
Uma promessa já feita
Tem um feitiço profundo
Para me deixar aceita.”
De repente, certo dia...
Começou outra novela
O Correio devolvia
O tal presente pra ela
O vestido viajante
Começou a ser turista
E quase sem dar na vista
Voltou pra Olinda velha.
A remetente furiosa
Em cima de mim caiu:
“Ou é você ou é ela
A me fazer de chibiu.
Fiz a coisa toda airosa
E meu regalo tão lindo
Enviado todo prosa
De indo termina vindo”.
Respondi enraivecido
Com tanta desconfiança:
“Não venha a sua burrança
Mexer com minha libido.
Ou foi erro do Correio
Ou o carteiro esqueceu
Depois de um dia fudido
A rua que você escreveu.”
E lá no sertão da Bahia
A jovem aniversariante
Estava preocupada
Com o presente viajante
E como não era culpada
Daquilo que acontecia
Comentava ao poeta
Toda noite e todo dia:
“Dessas coisas não entendo
Meu endereço está certo
Não sou cigana nem vento
Para ter um rumo incerto
Se a culpa foi do carteiro
Tudo pode acontecer.
Pois o mundo brasileiro
Tem coisa pra inglês ver”.
Aconteceu de repente
Confirmado o endereço
Resolveu-se a remetente
No meio do Carnaval
Mandar de novo o presente
E disse pra mim no e-mail:
“Por apreço e em permeio
Chega por bem ou por mal”.
A mocinha tava ansiosa
E falou só para mim:
“Espero que essa coisa
Chegue logo por aqui.
Do jeito que a vida anda
Não posso negacear
Quero abrir sem tardança
E ver o que vou ganhar”.
Ninguém sabia que era
Um belo e azul vestido
Posto na fila de espera
De onde já tinha partido
Mas agora a presepada
Saiu de mal a pior
Em lugar de Itaberaba
Caiu em Feira o penhor.
Existe aqui na internet
Um tal de rastreamento
Para ver se o correio
Tá fazendo o movimento
E fez isso a remetente
Como o figurino manda
Ao rastrear o presente
A sua raiva desanda.
E até eu fiquei pasmo
Com essa coisa tão besta
Que acordei do marasmo
Quando cá fazia a sesta
Lá estava a louca insana
Da remetente a gritar:
“Por que em Feira de Santana
Foi meu regalo parar?”
Senti uma louca vontade
De começar a gargalhar.
Pois não é que era verdade
O seu novo reclamar?
O reenviado presente
Viajou pra outra cidade
E zombando da remetente
Ficou por lá a vadiar.
E nessas vindas e idas
De Olinda a Itaberaba
Venho gozar essas vidas
Novela que não acaba:
A baiana na espera!
A olindense arretada!
E em Feira de Santana
O presente não faz nada!
Dezenas de dias depois
E de mil telefonemas
O correio explica aos dois
O motivo do problema
O presente foi enviado
Em postagem especial
Um PAC meio safado:
Postagem Ao Carnaval!
Numa bela sexta-feira
O danado de repente
Chega direto de Feira
Mata a ânsia dessa gente
Tudo de cabeça quente
Pai, mãe, irmã e irmão:
“Abre logo esse demente!
Vamos ver a danação!”
Grande silêncio mouco
Encheu o meio da sala
E a menina aos poucos
Desempacota a mala
De lá sai outro pacote
E se ouvem gritos roucos:
“Tem um cheiro esquisito
Saindo desse malote!”
As mãos dela tremem tanto
Que a mãe vai ajudar
E ela cheia de espanto
Puxa aqui e acolá
Abrindo toda a sacola
Inicia o repuxar
E o azul de um tecido
Começa a se espraiar
De repente uma ventania
Sai daquele pacotaço.
E um cheiro de bruxaria
Enche todo aquele espaço.
E num só estardalhaço
Começa a espirradeira
“Evoé, quanto perfume!
É coisa de feiticeira!”
E o pai aparvalhado
Tira a palavra da boca:
“Menina que coisa é essa?
Essa tua amiga é louca!
É macumba de atrasado
Ou é despacho de Exu?
Esse vestido enfeitado
E todo na cor azul?”
E mais do que espantado
Continua a reclamar:
“Como é que agora vou
Beber no bar do Itamar?
O cheiro desse danado
Até na cueca entrou
E meu pau já tá melado
Com perfume de fulô”.
Nem a mãe é mais clemente
E não pode variar:
“Mocinha, esse presente
Acabou com o jantar.
A moqueca perfumou-se
E até o meu vatapá
O camarão ficou doce
Por causa desse cheirar.”
E o pior da história
Veio da irmã mais velha:
“Esse perfume é a glória
Me fez lembrar a Estela
E aqueles dias passados
A beijar as coxas dela
E no fazer cacheados
Catando perebas nela”.
Ainda mais arretado
O mano mais velho ficou:
“Isso é coisa de viado
A mexer com meu pendor.
Pois estou sentindo algo
Vindo do vestido azul
Como se sendo traçado
Lá no olho do meu cu”.
A menina aperriada
O vestido azul pegou
Sem pensar em mais nada
Ela o experimentou.
Caiu como uma luva
Assim sem tirar nem pôr
E como a terra à chuva
Ao feitiço se entregou.
Ela disse para mim:
“É um vestido de seda
Tem um cheiro de jasmim
A pegar logo que medra
Se tem mesmo um feitiço
Eu nem vou imaginar
Vestirei sem dar aviso
Ele não vai machucar”.
“Um presente assim bonito
Não se pode desprezar
Não tem nada de maldito
Nem coisa de Yemanjá.
É um regalo cheiroso
Difícil de imaginar
Tem algo assim de gostoso
Pro corpo saborear.”
Aqui acaba a história
Do vestido viajante
Saído da velha Olinda
À Itaberaba distante
Com seu azul de cetim
E perfume de jasmim
A mostrar como é linda
Uma amizade assim.
A HERANÇA MALDITA DO MÊS DE ABRIL
(...) Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Antiga lição: / De morrer pela pátria / E viver sem razão”.
.......................
Abril 2010.
.......................
Este abril de hoje não é o mesmo abril de há 46 anos, camaradas. Mas ainda assim é um abril que traz em seu bojo uma herança maldita. Esse abril ainda vai demorar a ser esquecido. Sim, pois existe uma antiga lição a ser levada ao conhecimento dos mais jovens habitantes da pátria brasileira. Para que eles a estudem e façam o dever de casa. Parafraseando Geraldo Vandré, as lições vieram dos quartéis. Vieram das armas que se diziam defensoras de nossa realidade de homens e pensadores e trabalhadores livres.
Sim, camaradas, a herança maldita deixada pelos homens fardados a todos nós, brasileiros, está presente em cada espaço comum da nossa grande nação. A concentração do poder constituído nas mãos de uns poucos homens fardados, a partir do trágico dia 1º de abril de 1964, deixou-nos uma herança com a qual ainda compactuamos. Herança com a qual os grupos direitistas remanescentes pretendem permanecer ligados. Não nos iludamos. Esta é a verdade.
Há 46 anos, a chamada elite das Forças Armadas arrogou a si mesma capacidade técnica e administrativa para fazer do Brasil “um país que vai pra frente”. Apoiada pela grande mídia corrupta e por grandes empresários e industriais arrancou dinheiro da população para levar prosperidade a uns poucos, deteriorando o perfil de renda dos verdadeiros construtores do país. Essa elite das Forças Armadas montou uma poderosa máquina de repressão e criou centros paralelos de poder, onde assassinatos, torturas e o arbítrio eram os lemas principais.
Jamais devemos esquecer essa lição, camaradas! Os mestres das trevas continuam atuando nos bastidores e até mesmo às claras. Continuam tendo a intenção de revigorar a arcaica filosofia que criou uma estrutura social onde os trabalhadores e os homens livres financiavam com seu suor, com seu sangue e com seu dinheiro os protegidos das Três Armas, armas essas que, ao invés de defender a integridade da pátria resolveram financiar os grandes empresários, os industriais e os lobbies dos políticos apoiados pelo poder do Departamento de Estado dos EUA e pelo seu famigerado braço ativo, a CIA, em detrimento do desenvolver econômico e social da nação.
Camaradas, o que os chefes das Forças Armadas daquele distante abril fizeram com a pátria brasileira não tem nome no dicionário. Entre 1964 e 1985, as ações daqueles homens fardados atrasaram o Brasil e seu processo histórico. Retiraram o Brasil do rumo ao fortalecimento econômico e da integração social. Além disso, os homens empossados durante esses anos para governar o país, promoveram um festival de crimes contra os direitos humanos. Crimes irresponsáveis e hediondos, os quais ainda não foram julgados e seus autores devidamente condenados. Promoveram concentração de renda nas mãos de uns poucos, aumentando a pobreza e levando a criminalidade a crescer nos grandes centros urbanos. Se, hoje, temos centenas e milhares de bolsões de pobreza ao redor de nossas metrópoles; se temos, hoje, quadrilhas organizadas a dominar as favelas e as periferias; e, se, hoje, a violência está cada vez mais presente em nosso cotidiano, sabemos quem são os culpados, camaradas. Foram eles, os homens fardados e seus asseclas, a Grande Mídia, os grandes industriais e empresários os principais artífices de tudo isso.
Se hoje o Brasil retoma, aos poucos, o caminho da democracia e da realização econômica e social, devemos isso a alguns civis e a homens de amplos ideais que não se locupletaram com o banquete distribuído fartamente durante aqueles 21 anos de exceção. Ainda assim, os descontentes com a mudança de rumos continuam a brigar nos bastidores para que a idade das trevas retorne, para que a mão de ferro dos opressores da liberdade volte a atingir os homens livres deste grande país. Camaradas, continuam a existir pessoas e grupos organizados em busca da desordem institucional e a desejar uma ordem governamental baseada na desigualdade dos direitos sociais. Nós, livres pensadores e humanistas, repudiamos quaisquer tipos de ameaças à ordem política que estamos a viver atualmente. Durante 21 anos o país sofreu um grande e tenebroso retrocesso político, social e cultural e sabemos que serão necessários muitos outros anos para esquecer essa idade das trevas.
Hoje, estamos em outro abril, camaradas! A luta continua. Mas agora temos “a certeza na frente e a história na mão”, como bem disse o poeta e cantador. Que as novas gerações entendam o temor dos seus mais velhos e façam corretamente o dever de casa, sem descambar para restrições às idéias e às ações libertárias dos homens.
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Abril 2010.
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Este abril de hoje não é o mesmo abril de há 46 anos, camaradas. Mas ainda assim é um abril que traz em seu bojo uma herança maldita. Esse abril ainda vai demorar a ser esquecido. Sim, pois existe uma antiga lição a ser levada ao conhecimento dos mais jovens habitantes da pátria brasileira. Para que eles a estudem e façam o dever de casa. Parafraseando Geraldo Vandré, as lições vieram dos quartéis. Vieram das armas que se diziam defensoras de nossa realidade de homens e pensadores e trabalhadores livres.
Sim, camaradas, a herança maldita deixada pelos homens fardados a todos nós, brasileiros, está presente em cada espaço comum da nossa grande nação. A concentração do poder constituído nas mãos de uns poucos homens fardados, a partir do trágico dia 1º de abril de 1964, deixou-nos uma herança com a qual ainda compactuamos. Herança com a qual os grupos direitistas remanescentes pretendem permanecer ligados. Não nos iludamos. Esta é a verdade.
Há 46 anos, a chamada elite das Forças Armadas arrogou a si mesma capacidade técnica e administrativa para fazer do Brasil “um país que vai pra frente”. Apoiada pela grande mídia corrupta e por grandes empresários e industriais arrancou dinheiro da população para levar prosperidade a uns poucos, deteriorando o perfil de renda dos verdadeiros construtores do país. Essa elite das Forças Armadas montou uma poderosa máquina de repressão e criou centros paralelos de poder, onde assassinatos, torturas e o arbítrio eram os lemas principais.
Jamais devemos esquecer essa lição, camaradas! Os mestres das trevas continuam atuando nos bastidores e até mesmo às claras. Continuam tendo a intenção de revigorar a arcaica filosofia que criou uma estrutura social onde os trabalhadores e os homens livres financiavam com seu suor, com seu sangue e com seu dinheiro os protegidos das Três Armas, armas essas que, ao invés de defender a integridade da pátria resolveram financiar os grandes empresários, os industriais e os lobbies dos políticos apoiados pelo poder do Departamento de Estado dos EUA e pelo seu famigerado braço ativo, a CIA, em detrimento do desenvolver econômico e social da nação.
Camaradas, o que os chefes das Forças Armadas daquele distante abril fizeram com a pátria brasileira não tem nome no dicionário. Entre 1964 e 1985, as ações daqueles homens fardados atrasaram o Brasil e seu processo histórico. Retiraram o Brasil do rumo ao fortalecimento econômico e da integração social. Além disso, os homens empossados durante esses anos para governar o país, promoveram um festival de crimes contra os direitos humanos. Crimes irresponsáveis e hediondos, os quais ainda não foram julgados e seus autores devidamente condenados. Promoveram concentração de renda nas mãos de uns poucos, aumentando a pobreza e levando a criminalidade a crescer nos grandes centros urbanos. Se, hoje, temos centenas e milhares de bolsões de pobreza ao redor de nossas metrópoles; se temos, hoje, quadrilhas organizadas a dominar as favelas e as periferias; e, se, hoje, a violência está cada vez mais presente em nosso cotidiano, sabemos quem são os culpados, camaradas. Foram eles, os homens fardados e seus asseclas, a Grande Mídia, os grandes industriais e empresários os principais artífices de tudo isso.
Se hoje o Brasil retoma, aos poucos, o caminho da democracia e da realização econômica e social, devemos isso a alguns civis e a homens de amplos ideais que não se locupletaram com o banquete distribuído fartamente durante aqueles 21 anos de exceção. Ainda assim, os descontentes com a mudança de rumos continuam a brigar nos bastidores para que a idade das trevas retorne, para que a mão de ferro dos opressores da liberdade volte a atingir os homens livres deste grande país. Camaradas, continuam a existir pessoas e grupos organizados em busca da desordem institucional e a desejar uma ordem governamental baseada na desigualdade dos direitos sociais. Nós, livres pensadores e humanistas, repudiamos quaisquer tipos de ameaças à ordem política que estamos a viver atualmente. Durante 21 anos o país sofreu um grande e tenebroso retrocesso político, social e cultural e sabemos que serão necessários muitos outros anos para esquecer essa idade das trevas.
Hoje, estamos em outro abril, camaradas! A luta continua. Mas agora temos “a certeza na frente e a história na mão”, como bem disse o poeta e cantador. Que as novas gerações entendam o temor dos seus mais velhos e façam corretamente o dever de casa, sem descambar para restrições às idéias e às ações libertárias dos homens.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
O ESPELHO DA ALMA JANELA
terça-feira, 21 de julho de 2009
NOSFERATU EM CINCO

Busco o segredo desenhado sob o solo
De fantástico desejo recorrente
Asas negras escurecem o sol do pólo
Terremotos nas terras do Ocidente
Fera negra meu corpo anda a voejar
No olho de furacões desabridos
Ser notívago de costume tumular
Espaços frios e ainda não sabidos.
Sou anti-herói desse ar medonho
Onde a dor é mais que simples sonho
Onde moram os vampiros e zumbis
E durmo louco no escuro sarcófago
A mastigar um verso antropófago
Querendo sangue como jamais eu quis.
***********
E pela parca amplidão da noite escura
Nas velhas esquinas sujas da província
Uma carne feminina faz-se pura
E seu cheiro me enlaça em serpentina
Veias azuis a pedir os meus caninos
A enterrarem-se no macio pescoço
Desatinadas animam meu destino
Acordo de minha tumba em alvoroço
O manto negro se abre em longas asas
E vôo célere adejando sobre as casas
Sôfrega sede a pelejar como um tormento
Até descobri-la nua e esplêndida e bela
Oferecendo-me no parapeito da janela
O sangue rubro pra aplacar meu sofrimento.
***********
E faço-a minha! A minha vamp eternizada!
Guardo-a bela na tumba e no negrume
Levo-a em vôos noturnos transformada
Em Nosferatu companheira do meu lume
Nas vielas busco sangue para sua fome
Apartar e tê-la sempre minha escrava
Sussurrando aos seus ouvidos o meu nome
E sugando em todo dia a sua veia cava
Em vôos noturnos somos negras feras
Escondidas pelas deusas das quimeras
E ninguém sabe nosso lugar medonho
E os humanos são alimentos finos
Sangue puro a escorrer pelos caninos
E a nos trazer paixão a outro sonho.
***********
Sangue é a vida para a nossa eternidade
Fonte deliciosa nosso vício a alimentar
Sangue é o vinho a embebedar a liberdade
E a sede e o suplício da morte assassinar.
Voa pela cidade, amada de vida noturna!
Suga dos corpos puros este anseio de razão
Retorna para mim antes do vir a luz diurna
E dá-me a conta-gotas o líquido da paixão.
Depois, cubro sua carne com o negro manto
E no sibilar de rasgar a epiderme eu canto
Melodias funéreas a ressoar na pele imortal
E na lúgubre laje do nosso tumular sarcófago
Eu e você faremos nosso amor xifópago
A usufruir de cada um o sangue seminal.
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E se tivermos de reinar na imortalidade escura
No deserto fúnebre das trevas e das fossas
Não esqueça que poderei aglutinar a loucura
Ser vampiro e amante mesmo que não possas
Fugir do destino de ser toda sangue e medo
E serpente a deslizar nas alfombras de mim
Cuidado com a cruz daquele homem tredo
Cantor da morte extrema como salvação e fim.
Estaremos unidos em nossa eterna juventude
E imortais seremos em afago e atitude
E de nossa negridão espalharemos esse amor.
Sugando o sangue das almas interesseiras
Reviveremos as transilvânias guerreiras
E reinaremos apesar do medo e do pavor.
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© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife
CRIANÇAS GLOBAIS
Nas esquinas e nos semáforos
Lá estão todos eles
Nos esgotos abertos das ruas
Estão vivendo todos eles
Correndo em bandos nas avenidas
Lá vão todos eles
Vendendo chicletes, chocolates,
A tentar limpar pára-brisas...
O mundo deles não é teu nem meu
Nós os vemos de dentro do carro
Ou no jornal nacional global
Ou escrevendo na internet
Ou aos domingos ou às quartas
Ou nos sábados e sextas-feiras
Em todas noites loucas dessas...
Eu os vejo fumando crack
Nos cantos escuros dos prédios
Ao sair hipnotizado do cinema
Ou de uma livraria com livros
Ligados às questões sociais
E quando em casa bebo uma cerveja
Escutando um rock ou Maria Betânia...
Eu os vejo todos em retratos
E lá vão eles em bandos na busca
De uma vida por um trocado
De um sonho por um espaço
De jornais para serem lençóis
E mais ninguém olha para eles
Parecem viver noutra dimensão...
Nem a mulher saindo da igreja
Rindo pelos pecados apagados
Livro negro no sovaco os olha
Tem medo de ter pena e sentir
Que seu deus é um merda
Seus evangelhos são vômitos
Para encher cofres de ouro...
Lá estão eles e todos vivem
Catando o lixo na busca faminta
De um pão duro ou um osso
De chupeta nos lábios e ainda
Conseguem sorrir e ter alegria
Para brincar nas calçadas sujas
E continuar sendo sempre
Meninos e meninas globais.
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© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife
NOVOS RUMOS
Tempo de chumbo e quartelada
Homens encapuzados de vigia.
Mestres ensinando a lição errada:
“Fardados são a nossa salvação”.
Passei gritando todo esse tempo
E eles permanecem roubando
Ainda hoje todo o possível futuro.
As fardas ainda fazem procissão
E profissão de fé nos morticínios.
Passei raspando e por um triz...
Mãe, quase morro! E perdi o trem!
Na estação dos anos de chumbo
Permanecem resquícios fumarentos
Das fardas torturantes e esquivas
A matar os verões e as primaveras.
O trem ligeiro passou na estação.
Eles se esconderam em sobretudos
De inocentes e salvadores da pátria.
Agora estão rindo em dosséis de ouro.
Eles que me fizeram ser o que sou hoje.
Eles que fizeram o trem correr demais.
E nem dizem os nomes dos mortos
Pela minha glória e salvação terrena.
E nem pedem os perdões precisos
Às viúvas e aos filhos chorosos das vidas
E de tantos trens perdidos
Pelas estações de nosso antanho.
Ah, meu pai! Espero por outro trem
Sem fumaça e sem ter os fardados.
Ah, minha mãe! Espero outro trem
Para visitar tua terra de flores
E dizer aos nossos pobres mortos
Como existem vivos lutando a vida.
Vivos a buscar a essência deles todos.
Vivos, meu pai! Vivos, minha mãe!
Prontos para novos rumos, novas lutas.
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© Copyright by Rafael Rocha Neto, Recife
O PENSAMENTO PRIMITIVO AINDA EXISTE NO SÉCULO 21

Apesar de dono de um cérebro superior ao dos outros animais, o ser humano tende a se manter apegado ao ideário primata, ao pensamento primitivo, sem perceber a peça que lhe prega o próprio intelecto. Temos habilidades que os outros seres não possuem, mas perdemos algumas que eles mantêm, e, por conta disso, somos impedidos de aproveitar melhor a nossa vida. O que chega a ser cômico é o nosso mundo civilizado achar que suas superstições são mais razoáveis do que as dos silvícolas.
Não temos um olfato que nos capacite a perseguir um inimigo como faz o cachorro; nem somos capazes de dar a volta ao mundo sem bons conhecimentos geográficos e bússolas como fazem algumas aves. Para vencer a resistência do ar, criamos máquinas adequadas, enquanto os pássaros voam com seus próprios membros. Todavia, donos de tantos inventos para superar as nossas deficiências perante os animais inferiores, ainda acreditamos que nossos instintos de sobrevivência sejam tentações de algum diabo. Acreditamos que anjos da guarda nos protegem. Cremos que se satisfizermos nossos desejos e instintos seremos enviados para um lago de fogo, o inferno, onde iremos arder eternamente. Tudo isso por obra de um deus onipotente, o qual, ainda que submeta suas criaturas a um castigo infinito e interminável, continua a ser considerado perfeito, justo e bom.
Lembro de uma reportagem apresentada pelo programa Globo Repórter em que os índios amazônicos praticavam rituais nos quais acreditavam ter poder de afugentar os maus espíritos das florestas. Aos olhos de um cristão deste século 21, essas práticas místicas dos indígenas não são mais do que fruto de seu primitivismo, pois espíritos das florestas não existem, são coisas imaginárias criadas pela fértil imaginação dos índios. Concordo com os cristãos crentes e católicos civilizados. Concordo! Espíritos das florestas são criações da imaginação inculta. Porém, agora eu pergunto: os cristãos deste século 21 e que se dizem cultos têm alguma prova da existência de outras entidades sobrenaturais? Se não há qualquer fundamento para se acreditar na existência dos espíritos da floresta, existe alguma base mais sólida do que a imaginação para crer na existência dos anjos da guarda? E no diabo? E no deus cristão? Alguém já viu o diabo? Jamais encontrei qualquer indício desses seres imaginados. Concluo, portanto, que nenhum cristão tem mais razão do que os índios.
Quando o homem criou, em épocas remotas, a crença de possuir uma alma imaterial e independente do corpo, buscava explicar o sonho. Só isso. Os nossos antepassados mais antigos não perceberam que se os sonhos fossem atos de supostos espíritos, cada vez que alguém sonhasse com uma pessoa essa pessoa teria inevitavelmente o mesmo sonho. Mas isso não acontece. Se os antigos habitantes da Terra interpretavam os trovões e os ecos das próprias vozes como as vozes dos deuses, mostravam apenas que não conheciam os fenômenos naturais. As pessoas com deficiência mental, os loucos melhor dizendo, eram consideradas endemoninhados (possuídos pelos demônios), porque faltava aos nossos antepassados uma melhor compreensão do complexo mecanismo cerebral.
Nos dias atuais, quando todos esses mistérios já deixaram de ser mistérios, ainda se fala, apoiando-se na tese de Santo Agostinho, que tais coisas complexas da natureza não podem ter nascido por acaso. E ainda se diz que isso é prova suficiente da existência de um criador supremo. Conheci esse argumento quando era criança. Mas o meu cérebro infantil conseguiu a capacidade de entender como essa premissa é inútil. Pensei assim: de onde não pode provir o simples pode surgir o complexo? Se do acaso não pode surgir a criatura, poderia dele surgir o criador supremo? Se todas essas coisas só podem ter sido feitas por um poderoso e sábio criador, esse criador deve ter sido criado por outro superior a ele. Consequentemente, o criador do criador também teria que ter seu criador, e este o seu, em uma corrente infinita, um círculo vicioso que jamais acabaria. E o mais interessante, se pode existir um “criador incriado”, por que coisas simples da natureza não podem existir sem um ente criador?
Convenhamos, a evolução dos seres vivos é inegável. Isso nós percebemos na modificação dos vírus e bactérias e no desenvolvimento de novos tipos de resistência, tal como ocorre nos insetos. Se os fósseis encontrados pelos arqueólogos apresentam organismos tão mais simples quanto mais distantes estiverem no tempo, não há como continuarmos apegados à idéia de que tudo foi criado por um deus onipotente há seis mil anos, cada um segundo a sua espécie.
Sabe-se que antigamente a chamada palavra de deus afirmava que o sol percorre o céu, “de uma a outra extremidade do céu vai o seu caminho”; que as estrelas cairão do firmamento "pela terra como a figueira, quando abalada pelo vento forte, lança seus figos verdes". Hoje percebemos e sabemos que o sol é apenas uma estrela com alguns planetas a circular em torno dele, entre eles a Terra. Sabemos que as estrelas são milhares e milhões de vezes maiores do que a Terra, sendo impossível que caiam sobre ela. Dessa forma só podemos concluir que essa palavra tão venerada que chama de deus, não passa de uma idéia humana nascida numa época muito antiga. Portanto, cristãos, muçulmanos, judeus ou quaisquer outros, não têm mais razão do que os selvagens que acreditam nos chamados espíritos das florestas. Infelizmente, o pensamento primitivo continua ditando as regras para as mentes da maioria das pessoas. E em pleno século 21.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
HOMO PRIMITIVUS

“Se encerrarmos a verdade, enterrando-a no solo, ela crescerá, e adquirirá tal poder explosivo, que no dia em que explodir arrastará tudo à sua passagem”. Emile Zola
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Não há como deixar de observar na evolução do Universo que existe certo equilíbrio entre as diversas dimensões que o compõem. Incluindo nisso a evolução que ocorre no planeta Terra, a qual se manifesta através de grandes e demorados processos. A natureza terrestre, através de suas manifestações físicas, apresenta ao homem processos com muitos e especiais graus matemáticos, físicos, biológicos e químicos, os quais vêm de priscas eras geológicas. Dentro desse procedimento, o animal homem continua a evoluir, ainda que sua evolução ataque e atinja erradamente os processos expansionais do planeta.
O universo não para de se expandir. Essa é a verdade única. Mas o homem prende-se à idéia de que a criação e a evolução de sua espécie são responsabilidades de um deus. É nesse ponto que as maravilhas apresentadas pela natureza aos olhos humanos são esquecidas como parte e reino naturais para serem admiradas como obra de um criador, o qual muito excêntrico me parece, pois ninguém sabe quem ele é, como é, e o que pretende daqui para a frente.
Isso é de se lamentar. Numa época onde a ciência devia estar tão evoluída que o homem pudesse fugir dos conceitos fantasiosos de deus, santos, diabos e trindades divinas, cada vez mais a raça regride e se entrega, comodamente, às superstições milenares. Fica fácil, dessa maneira, aceitar as incertezas e as crueldades e até mesmo as tragédias. Na sua ignorância tribal o homem diz que se um avião caiu no mar e todos seus ocupantes morreram, foi porque tal deus assim o quis e nada podemos fazer contra o poder de tal deus. Ou, ainda, se existe fome no mundo é uma provação para que o homem aceite o filho de tal deus como a divindade verdadeira e única e acredite que após a morte não mais haverá fome, nem guerras, nem desastres aéreos. Acredite, morra e salve-se.
O que significa mesmo tal pensamento? Primitivismo, claro! Nenhum deus que seja criador pode se dar ao luxo de destruir sua própria criação apenas para ser aceito por ela. Mas a mentalidade humana, insuflada pelos poderes da religião, não aceita a verdade cruel de que um deus desse tipo é que é a fatalidade mesma da crença. Portanto, o homem deixa de construir um mundo com uma dimensão de qualidade humanitária, porque existe um deus para ele acreditar. E deixa de construir um mundo onde todos possam viver, progredir e realizar tudo que desejar, porque um deus não aceita essa forma de ser e de viver libertos dele. Assim, o homem abandona suas prerrogativas de transformar para melhor o mundo que o cerca para não magoar seu deus, que nada mais é do que sua própria fantasia interior de vida eterna.
E dedica-se a destruir tudo que a natureza cria e recria por acreditar que tal deus é dono dessa criação, esquecendo que a natureza evolui de segundo em segundo, de minuto em minuto, de hora em hora, e que tal criador é a maior das falácias inventadas pelo próprio ser humano para usurpar a idéia de expansão das dimensões universais, que há mais de bilhões de anos vem acontecendo em todo o infinito tanto dentro e fora do planeta Terra, do sistema solar e dos milhares de galáxias.
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