Como se vindos do nada meus pensamentos voaram sobre o Recife nas noites de solidão e de farra. Trouxeram lembranças de velhos amigos, cheiros de mangues, luzes amarrotadas das avenidas, olhares de mulheres e crianças tristes, e o grito de guerra do meu Sport. O Recife se fez gente. Trouxe até mim as mulheres, amigos de bebedeira, poesia e tudo que pudesse apaziguar a mente que não se cansa de pensar. Assim nasceu a palavra vinda de minha rocha.
Busco o segredo desenhado sob o solo De fantástico desejo recorrente Asas negras escurecem o sol do pólo Terremotos nas terras do Ocidente
Fera negra meu corpo anda a voejar No olho de furacões desabridos Ser notívago de costume tumular Espaços frios e ainda não sabidos.
Sou anti-herói desse ar medonho Onde a dor é mais que simples sonho Onde moram os vampiros e zumbis
E durmo louco no escuro sarcófago A mastigar um verso antropófago Querendo sangue como jamais eu quis.
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E pela parca amplidão da noite escura Nas velhas esquinas sujas da província Uma carne feminina faz-se pura E seu cheiro me enlaça em serpentina
Veias azuis a pedir os meus caninos A enterrarem-se no macio pescoço Desatinadas animam meu destino Acordo de minha tumba em alvoroço
O manto negro se abre em longas asas E vôo célere adejando sobre as casas Sôfrega sede a pelejar como um tormento
Até descobri-la nua e esplêndida e bela Oferecendo-me no parapeito da janela O sangue rubro pra aplacar meu sofrimento.
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E faço-a minha! A minha vamp eternizada! Guardo-a bela na tumba e no negrume Levo-a em vôos noturnos transformada Em Nosferatu companheira do meu lume
Nas vielas busco sangue para sua fome Apartar e tê-la sempre minha escrava Sussurrando aos seus ouvidos o meu nome E sugando em todo dia a sua veia cava
Em vôos noturnos somos negras feras Escondidas pelas deusas das quimeras E ninguém sabe nosso lugar medonho
E os humanos são alimentos finos Sangue puro a escorrer pelos caninos E a nos trazer paixão a outro sonho.
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Sangue é a vida para a nossa eternidade Fonte deliciosa nosso vício a alimentar Sangue é o vinho a embebedar a liberdade E a sede e o suplício da morte assassinar.
Voa pela cidade, amada de vida noturna! Suga dos corpos puros este anseio de razão Retorna para mim antes do vir a luz diurna E dá-me a conta-gotas o líquido da paixão.
Depois, cubro sua carne com o negro manto E no sibilar de rasgar a epiderme eu canto Melodias funéreas a ressoar na pele imortal
E na lúgubre laje do nosso tumular sarcófago Eu e você faremos nosso amor xifópago A usufruir de cada um o sangue seminal.
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E se tivermos de reinar na imortalidade escura No deserto fúnebre das trevas e das fossas Não esqueça que poderei aglutinar a loucura Ser vampiro e amante mesmo que não possas
Fugir do destino de ser toda sangue e medo E serpente a deslizar nas alfombras de mim Cuidado com a cruz daquele homem tredo Cantor da morte extrema como salvação e fim.
Estaremos unidos em nossa eterna juventude E imortais seremos em afago e atitude E de nossa negridão espalharemos esse amor.
Sugando o sangue das almas interesseiras Reviveremos as transilvânias guerreiras E reinaremos apesar do medo e do pavor. ....................................
Nas esquinas e nos semáforos Lá estão todos eles Nos esgotos abertos das ruas Estão vivendo todos eles Correndo em bandos nas avenidas Lá vão todos eles Vendendo chicletes, chocolates, A tentar limpar pára-brisas...
O mundo deles não é teu nem meu Nós os vemos de dentro do carro Ou no jornal nacional global Ou escrevendo na internet Ou aos domingos ou às quartas Ou nos sábados e sextas-feiras Em todas noites loucas dessas...
Eu os vejo fumando crack Nos cantos escuros dos prédios Ao sair hipnotizado do cinema Ou de uma livraria com livros Ligados às questões sociais E quando em casa bebo uma cerveja Escutando um rock ou Maria Betânia...
Eu os vejo todos em retratos E lá vão eles em bandos na busca De uma vida por um trocado De um sonho por um espaço De jornais para serem lençóis E mais ninguém olha para eles Parecem viver noutra dimensão...
Nem a mulher saindo da igreja Rindo pelos pecados apagados Livro negro no sovaco os olha Tem medo de ter pena e sentir Que seu deus é um merda Seus evangelhos são vômitos Para encher cofres de ouro...
Lá estão eles e todos vivem Catando o lixo na busca faminta De um pão duro ou um osso De chupeta nos lábios e ainda Conseguem sorrir e ter alegria Para brincar nas calçadas sujas E continuar sendo sempre Meninos e meninas globais. ......................................
Tempo de chumbo e quartelada Homens encapuzados de vigia. Mestres ensinando a lição errada: “Fardados são a nossa salvação”. Passei gritando todo esse tempo E eles permanecem roubando Ainda hoje todo o possível futuro. As fardas ainda fazem procissão E profissão de fé nos morticínios.
Passei raspando e por um triz... Mãe, quase morro! E perdi o trem! Na estação dos anos de chumbo Permanecem resquícios fumarentos Das fardas torturantes e esquivas A matar os verões e as primaveras. O trem ligeiro passou na estação. Eles se esconderam em sobretudos De inocentes e salvadores da pátria.
Agora estão rindo em dosséis de ouro. Eles que me fizeram ser o que sou hoje. Eles que fizeram o trem correr demais. E nem dizem os nomes dos mortos Pela minha glória e salvação terrena. E nem pedem os perdões precisos Às viúvas e aos filhos chorosos das vidas E de tantos trens perdidos Pelas estações de nosso antanho.
Apesar de dono de um cérebro superior ao dos outros animais, o ser humano tende a se manter apegado ao ideário primata, ao pensamento primitivo, sem perceber a peça que lhe prega o próprio intelecto. Temos habilidades que os outros seres não possuem, mas perdemos algumas que eles mantêm, e, por conta disso, somos impedidos de aproveitar melhor a nossa vida. O que chega a ser cômico é o nosso mundo civilizado achar que suas superstições são mais razoáveis do que as dos silvícolas.
Não temos um olfato que nos capacite a perseguir um inimigo como faz o cachorro; nem somos capazes de dar a volta ao mundo sem bons conhecimentos geográficos e bússolas como fazem algumas aves. Para vencer a resistência do ar, criamos máquinas adequadas, enquanto os pássaros voam com seus próprios membros. Todavia, donos de tantos inventos para superar as nossas deficiências perante os animais inferiores, ainda acreditamos que nossos instintos de sobrevivência sejam tentações de algum diabo. Acreditamos que anjos da guarda nos protegem. Cremos que se satisfizermos nossos desejos e instintos seremos enviados para um lago de fogo, o inferno, onde iremos arder eternamente. Tudo isso por obra de um deus onipotente, o qual, ainda que submeta suas criaturas a um castigo infinito e interminável, continua a ser considerado perfeito, justo e bom.
Lembro de uma reportagem apresentada pelo programa Globo Repórter em que os índios amazônicos praticavam rituais nos quais acreditavam ter poder de afugentar os maus espíritos das florestas. Aos olhos de um cristão deste século 21, essas práticas místicas dos indígenas não são mais do que fruto de seu primitivismo, pois espíritos das florestas não existem, são coisas imaginárias criadas pela fértil imaginação dos índios. Concordo com os cristãos crentes e católicos civilizados. Concordo! Espíritos das florestas são criações da imaginação inculta. Porém, agora eu pergunto: os cristãos deste século 21 e que se dizem cultos têm alguma prova da existência de outras entidades sobrenaturais? Se não há qualquer fundamento para se acreditar na existência dos espíritos da floresta, existe alguma base mais sólida do que a imaginação para crer na existência dos anjos da guarda? E no diabo? E no deus cristão? Alguém já viu o diabo? Jamais encontrei qualquer indício desses seres imaginados. Concluo, portanto, que nenhum cristão tem mais razão do que os índios.
Quando o homem criou, em épocas remotas, a crença de possuir uma alma imaterial e independente do corpo, buscava explicar o sonho. Só isso. Os nossos antepassados mais antigos não perceberam que se os sonhos fossem atos de supostos espíritos, cada vez que alguém sonhasse com uma pessoa essa pessoa teria inevitavelmente o mesmo sonho. Mas isso não acontece. Se os antigos habitantes da Terra interpretavam os trovões e os ecos das próprias vozes como as vozes dos deuses, mostravam apenas que não conheciam os fenômenos naturais. As pessoas com deficiência mental, os loucos melhor dizendo, eram consideradas endemoninhados (possuídos pelos demônios), porque faltava aos nossos antepassados uma melhor compreensão do complexo mecanismo cerebral.
Nos dias atuais, quando todos esses mistérios já deixaram de ser mistérios, ainda se fala, apoiando-se na tese de Santo Agostinho, que tais coisas complexas da natureza não podem ter nascido por acaso. E ainda se diz que isso é prova suficiente da existência de um criador supremo. Conheci esse argumento quando era criança. Mas o meu cérebro infantil conseguiu a capacidade de entender como essa premissa é inútil. Pensei assim: de onde não pode provir o simples pode surgir o complexo? Se do acaso não pode surgir a criatura, poderia dele surgir o criador supremo? Se todas essas coisas só podem ter sido feitas por um poderoso e sábio criador, esse criador deve ter sido criado por outro superior a ele. Consequentemente, o criador do criador também teria que ter seu criador, e este o seu, em uma corrente infinita, um círculo vicioso que jamais acabaria. E o mais interessante, se pode existir um “criador incriado”, por que coisas simples da natureza não podem existir sem um ente criador?
Convenhamos, a evolução dos seres vivos é inegável. Isso nós percebemos na modificação dos vírus e bactérias e no desenvolvimento de novos tipos de resistência, tal como ocorre nos insetos. Se os fósseis encontrados pelos arqueólogos apresentam organismos tão mais simples quanto mais distantes estiverem no tempo, não há como continuarmos apegados à idéia de que tudo foi criado por um deus onipotente há seis mil anos, cada um segundo a sua espécie.
Sabe-se que antigamente a chamada palavra de deus afirmava que o sol percorre o céu, “de uma a outra extremidade do céu vai o seu caminho”; que as estrelas cairão do firmamento "pela terra como a figueira, quando abalada pelo vento forte, lança seus figos verdes". Hoje percebemos e sabemos que o sol é apenas uma estrela com alguns planetas a circular em torno dele, entre eles a Terra. Sabemos que as estrelas são milhares e milhões de vezes maiores do que a Terra, sendo impossível que caiam sobre ela. Dessa forma só podemos concluir que essa palavra tão venerada que chama de deus, não passa de uma idéia humana nascida numa época muito antiga. Portanto, cristãos, muçulmanos, judeus ou quaisquer outros, não têm mais razão do que os selvagens que acreditam nos chamados espíritos das florestas. Infelizmente, o pensamento primitivo continua ditando as regras para as mentes da maioria das pessoas. E em pleno século 21.